sexta-feira, 12 de setembro de 2008

À MARGEM | TEOREMA DE PITÁGORAS


Na esplanada onde estava havia um homem de estatura meã, robusto e congestionado que gritava, cheio de ira, para um outro, altíssimo, magríssimo, espantadíssimo. Tolices de fanáticos do futebol. Nesse tempo, não hoje, falar de coisas de futebol era falar de coisas dignas. Gritar de fanatismos, sobre fanatismos, com fanatismos, isso era e é coisa menor, indigna. Sobretudo se o fanatismo provier de um grande fenómeno democrático, repito democrático, que era o futebol.
A esplanada onde estava dobra-se para uma paisagem surpreendente: dali vê-se parte do estuário do Tejo na qual o rio forma uma caprichosa laçada. De súbito, ou não assim tão súbito, sobe-me à ideia a figura típica do meu antigo professor de matemática. Professor do colégio onde o velho Curado legou a parte mais estrelar do seu belo talento. Dizia ter demonstrado o teorema de Pitágoras. Alcoólico, de não reconhecido, falava dele como se o teorema fosse, e afinal é, uma pessoa, daquelas pessoas que têm alma.
Hoje ninguém sabe quem foi o capitão Curado. E esse ninguém envolve uma pazada de antigos alunos seus e simpatizantes, que aprenderam dele a matemática que os guindou a outros patamares. Mas o capitão marcou-me uma época e definiu-me um estilo. Além disso era um homem de honra. Tinha muito poucos amigos e para arredondar o tempo, fazia uns trabalhitos em madeira numa carpintaria por si montada na própria casa, num anexo, mesmo junto à despensa, onde se amontoavam papéis até ao tecto, cheios de orgulhosas contas e de riscos, de parceria com o inseparável garrafão de vinho. Sobre ele ficava sempre um copo voltado sobre o gargalo, onde, às escondidas, como o fazia no tempo da esposa, bebia copos atrás de copos, envergonhados. Vivia só. Por lá vagueava o Tareco, o inseparável gato preto, com quem falava largamente de matemática e de outras paixões. Então, o velho Tareco, roçava-se incansavelmente pelas pernas, como se agradecesse as matérias ensinadas pelo professor. Isto diariamente, durante anos a fio.
Eu gostava de falar com aquele homem alto e de andar pausado. Sentia orgulho em apertar-lhe a mão, em seguir na rua, a seu lado, ouvindo-lhe o discretear. Por vezes, ao começo da noite, à saída do colégio, eu via-o, a caminho de casa para avinhar a viuvez, a cumprimentar, cortês, quem passava. Não conseguia reprimir-me e gritava-lhe:
- Boa noite, capitão!
Ele parava, voltava-se lentamente para mim, saudava o puto discípulo e lá ia, desvanecido num sorriso bondoso, um homem efusivo e dominado pela matemática, nunca vergado na sua integridade exemplar. Eu ficava a olhá-lo até ele desaparecer no alto da rua, lá em cima, à esquerda.
Mas estava na esplanada, a olhar no Tejo, ouvia a berraria frenética, e lá se me devolve a velha história do nosso capitão:
“Estava eu a cervejar, na Place Rogier, p'raí uma superfície cinco vezes superior ao Trindade - onde eu estava e daí o recordar - e eis senão quando entram um burro e um burriqueiro por ali a dentro. Calmamente, o empregado de balcão estende ao burriqueiro, montado no seu burro, uma imponente caneca de cerveja e ao burro, que suportava o peso do seu burriqueiro, uma não menos imponente tigela... de cerveja, bem entendido. Beberam, arrotaram os dois, o burro fez um ronco medonho, e regressaram pelo mesmo caminho.”
A história do capitão Curado era extremamente dura, inacreditável, pessoal e intransmissível. Fiquei, um dia, com o peito cheio de vaidade pela distinção que me fez quando me disse, que esta história era mesmo verdade e não uma rotunda treta, como todos pensavam.
Dias depois vi-o, agradeci-lhe, ele sorriu, deu-me uma palmada no ombro, e disse-me:
- É bom ver-te crescer.
Gostava tanto de o rever, sentado comigo, naquela ou noutra esplanada, onde já não vou há anos. E falaríamos, certamente falaríamos acerca de coisas simples e belas como o episódio do burro; sobre o rio; sobre Pitágoras. Falaríamos e éramos, agora, os dois da mesma idade, porque o tempo nunca o tinha envelhecido. Os dois da mesma idade. Mas, sobretudo, dois amigos sentados na mesma esplanada a ver o rio.

À MARGEM | CIGANA


Alta, madura e enérgica, a enfermeira Rita saía do segundo esquerdo para o trabalho, como todos os dias. Do pátio, onde a roupa estendida descuidadamante mostrava a promiscuidade e pobreza dos vizinhos, saía Cristina. Ainda menina, peitos levantados duma florescente puberdade, enxugava lágrimas e mais lágrimas.
Rita, observou, atentamente, o choro da miúda. A sua experiência maternal dizia-lhe que aquele pranto escondia algo de grave. Inquiridora, judicial, com amigável severidade, deteve a garota, que cada vez chorava mais:
- O que é que tens? Para que são tantas lágrimas?
Com voz soluçada, depois de largo suspiro, Cristina confessa o delicado problema, como quem se lança à água de um barco naufragado:
- Estou muito mal e tenho que ir para a escola, senhora Rita. Estou a deitar muito sangue e o penso que pus está sempre a cair...
Será que a miúda já era mulher? Será que nem a mãe nem a professora a tinham prevenido? Como é uma experiência que sempre assusta quando não se espera, bem poderia ser isso, imaginara a enfermeira:
- A tua mãe não sabe? Não lhe disseste que te sentias mal?
- Ai, senhora Rita, matava-me se soubesse. Por Deus, não lhe vá dizer...
Um palpite medonho invadiu o peito e golpeou o rosto da surpreendida senhora. A voz endureceu, com uma irritada curiosidade na pergunta.
- Diz lá o que é que tens, rapariga?
Chorava com toda a alma. Depois, logo que pode conter alguns dos soluços:
- É que... o Luís... é que o Luís fez-me uma grande patifaria...
Rita, apesar da estranheza, ficou imóvel, numa dúvida intranquila. O seu filho, também Luís, era um rapagão de quinze anos, a mudar de voz, que às vezes chegava tarde à escola. Teria sido ele? Se fosse já o teria sabido, pensava ela para se consolar.
- Entra aí para a barraca da Cilita que eu já lá vou ter. E vê se deixas de chorar, que vou curar-te.
E se fosse? Seria terrível. O Sebastião, pai da Cristina, um homem habituado a desordens, não se incomodava nada de matar o Luís. Havia que averiguar isso a fundo.
Voltou a casa, o filho deveria estar por lá:
- Luís, anda daí.
Lá veio, como se o tivessem descoberto. Cabeça baixa, olhos bem postos no chão, envergonhado. A enfermeira olhava atentamente o filho com ar apreensivo:
- Luís, o que é que fizeste à Cristina?
A voz era inapelável. Não havia salvação possível. Luís estava compungido. Percebeu que não podia escapar. E, pelo aspecto da mãe, nada de bom seria de esperar.
- Já te digo!... Que fizeste à Cristina? Já me está...
Não era fácil explicar mas, por não haver saída, confessou o golpe:
- É que... pois é... há muito tempo que ela me dizia que eu nem homem era, nem nada... e depois... depois agarrava-me... e eu dizia-lhe que estivesse quieta.... ou que, então, lhe mostrava se era homem ou não.... acabei por....
A enfermeira não pediu mais quaisquer explicações ao filho que, assustado, sentindo as lágrimas a querer sair dos olhos, continuou com voz trémula:
- Foi ela... ela é que me procurou... muitas vezes... gozou-me, agarrou-me... e que não era homem... e que era maricas... Fiz asneira, pronto!
Não se conteve a pobre enfermeira e chorou desalmadamente.
- Vais ver, meu malandro, o que é ser homem. Acabou-se a escola e a canalhice. Se te sentes capaz de tantas coisas, vais saber o que é realmente usar calças. Hoje mesmo vais trabalhar. Hoje mesmo, nem mais um dia, para perderes a mania.
A enfermeira, enfurecida, pegou-lhe no braço, com empurrões cada vez mais violentos:
- Desaparece, vai-te daqui para fora, antes que te matem... meu sem vergonha!...
O Luís saiu mudo. Muito grave deveria ser o que tinha feito. Atravessou o pátio até à rua, com medo de encontrar Sebastião, o pai da Cristina, que sabia ser homem muito violento. Sentia-se outro, estranho, no próprio bairro onde tinha nascido. As mesmas ruas pareciam agora diferentes. A linha do comboio, os postes, as gentes, tudo parecia ver pela primeira vez. Mas, enquanto, na barraca de Cilita, Cristina chorava compulsivamente, um vaidoso e estranho orgulho lhe subiu as veias, num desvairado pensamento: “e se fumasse um cigarro?...”

À MARGEM | TRINCHEIRA


De pronto todas as cabeças desapareceram. Arregalou os olhos, levantou levemente a cabeça na tentativa de se localizar e de medir o perigo. Era preciso furar a barricada para se pôr a salvo. Perdido, ali, único sobrevivente dos ocupantes de um helicóptero que não tinha conseguido escapar aos mísseis. Queimados, nos destroços, tinham ficado onze jovens, valentes camaradas, de uns mal contados vinte anos. Portugueses numa Angola já perdida. Corria o ano de setenta e um.
No campo, os soldados inimigos corriam em todas as direcções. Um súbito e pavoroso clarão iluminou a noite escura, envolvendo os corpos. Alguns sem cabeça. Braços agitados confusamente como quem dança, macabra e sangrenta. Os seus camaradas tinham acertado em cheio.
Muito tenso, ficou entrincheirado num pequeno buraco aberto, quase providencialmente, por uma granada que ali caíra, minutos antes. Um abrigo divino no meio do inimigo.
O ruído metralhava os tímpanos. Cresceu o terror, cerrou punhos e dentes. Os rostos em volta, ensanguentados, reflectiam um pavor indescritível. Era a guerra. Não perseguiam ninguém. Vasculhavam feridos por entre mortos, em movimentos absurdos. Desapareciam, voltavam a aparecer, voavam em pedaços a mais um balázio bem sucedido.
Começou a ouvir a cadência ritmada e forte, de tanta proximidade, de uma metralhadora. Chorou de medo. Gritos e mais gritos apunhalaram a espinha dorsal. O pavor apertou-lhe o peito.
A muito a custo, conseguiu vestir um camuflado inimigo, roubado dum corpo morto ali mesmo, ao lado, caído. Reapareceram cabeças e corpos, saltavam à esquerda e à direita, uns sobre os outros.
Sem a arma, perdida no acidente aéreo, atirou-se indiferente ao perigo para fora do buraco, na ânsia desesperada de encontrar lugar mais seguro na praia, perto. Escondeu-se na primeira vala que encontrou, polvilhada de cadáveres. Por entre os corpos, alguém avançou para ele, negro, ensanguentado e armado até aos dentes. Ficou imóvel, gélido até a medula mais profunda dos ossos. Quase deixou de respirar. Acalentou lenta e ténue esperança de que o camuflado roubado antes lhe pudesse, por semelhança, fazer alguma protecção.
O homem, erguido por entre mortos, foi-se aproximando atirando algumas, poucas, palavras. Nem uma sequer percebeu. A cada passo da estranha personagem o seu coração reagia apertando o peito. O medo de ser descoberta a camuflagem, roubada, atirou-o para um pranto soluçado e violento. O homem, estranhamente enternecido, reconhecendo o inimigo que a pele não podia esconder, num português quase perfeito:
- Que fazes aqui?
Dúvida nenhuma de que tinha sido descoberto, tal a proximidade. Entre soluços:
- Vais matar-me?
- Para quê matar-te se nada tenho contra ti? Ambos desejamos, apenas, não morrer. Basta que fiquemos quietos para cumprir este desejo.
Largou a metralhadora, envolveu-o num abraço profundo:
- Amigo!

À MARGEM | UM DEUS DISTRAIDO


Duas raparigas estão na pista do aeroporto, a olhar para um avião. Uma e outra paradas no asfalto, atentam nos mais ínfimos pormenores da aeronave: as asas que não são complectamente horizontais, os rebites e as linhas de soldadura, o trem de aterragem, triangular, as turbinas, cujo centro forma um espécie de bico. Olham para a máquina como se duvidassem daquele monstro de metal, como se não estivessem certas de que é capaz de subir pelos ares, com elas lá dentro.
Este misto de atracção e receio, o desejo de voar refreado pelo medo de caír, é típico de qualquer baptismo de voo. Só que, neste caso, há uma pequena nuance: Clara e Joana têm incapacidades motoras. Talvez por isso, o olhar se demora um pouco mais na estrutura do avião, procurando uma segurança que elas próprias não sentem quando avançam pela pista em cadeiras de rodas. O piloto, compreende isso muito bem e sabe que as miúdas, ao verem-no trepar, à força de braços, pela escada acima, deixarão de lado todos os receios.
Assim foi, no dia dezasseis de Abril, num voo para a Madeira. As duas raparigas, escolhidas à sorte, de entre os jovens internados no Hospital do Alcoitão, deliraram com a viagem. É que, apesar de curta, ela deu-lhes a possibilidade de subir às alturas, de ver casas, estradas, carros, árvores, pessoas, tudo em miniatura como nos jogos do Lego, fê-las atravessar as núvens e perceber que não são feitas de algodão. Entre Lisboa e Funchal elas puderam esquecer-se, por uns minutos, das pernas que não andam e das asas que gostariam de ter. Estavam excitadíssimas, num estado de alegria e entusiasmo impressionantes.
Fez-me lembrar o Eagle’s Day. À semelhança e por cá o nosso António Faria e Mello, um português de Viana do Alentejo, paraplégico, desde que um médico, em setenta e sete, o deixou inválido, durante uma operação à coluna, num hospital sul africano, tinha então dezanove anos e era, na altura, piloto de um setecentos e trinta e sete. Depois de uma batalha borucrática, recuperou o brevet. Não se tem cansado de voar, sendo mesmo o segundo piloto deficiente da história da aviação a conseguir, sozinho, uma volta ao globo terrestre.
Fiquei muito satisfeito. Chegado à Madeira, tentei junto dos variadíssimos turistas americanos, que invadem a ilha, saber algo do Rick. Quase todos lhe conheciam o nome e o tinham como herói de guerra na defesa da bandeira de muitas estrelas. Um desses turistas, um homenzarrão, dos seus cinquenta anos, por entre uma montanha de cervejas, num mesa de um bar do hotel, aconselhou-me a Base das Lages, se quisesse saber alguma coisa mais da sua vida. Foi o que fiz pelo telefone, mais tarde, com pleno êxito, tendo conseguido pouca informação, mas a direcção do herói americano. Escrevi-lhe a contar-lhe e a agradecer-lhe o que vira na viagem, mas as cartas vieram devolvidas porque, entretanto, soube-o meses depois, morrera de cancro.
Regressei à viagem com raiva em relação ao Rick. Deus tinha-se distraído duas vezes…

terça-feira, 9 de setembro de 2008

À MARGEM | OLÁ, EU SOU O JOÃO


Gostava de passear pela cidade iluminada, apesar daqueles dias gelados de Dezembro. Todas as cores do mundo a enfeitar as ruas que, muitas vezes, me pareceram apenas cinzentas. Os sorrisos colados à cara de toda aquela gente apressada e o sentir do cheiro bom das castanhas assadas. Sem perceber porquê sentia-me, de certa forma, feliz.
Às vezes, fazia de conta que estava sozinho no meio da multidão. Divertia-me ver aquelas senhoras tão atrapalhadas a embrulhar tantos presentes e os senhores a atender muita gente ao mesmo tempo, muito depressa.
Naquele dia gelado decidi falar com os mais carenciados. Não achava grande piada ver o Pai Natal, em todas as esquinas das ruas enfeitadas, dentro das lojas a pegar nos meninos ao colo. Alguns chegam a chorar. Não tinha graça nenhuma. Nunca acreditei naqueles homens gordos de barba branca e vestidos de encarnado, sempre me pareceram um bocado estúpidos. Nesse dia conheci um menino, que também se chamava João, e dei-lhe um rebuçado. Também ele não acreditava no Pai Natal. Gostei muito dele apesar de não o ter visto nunca mais. Mesmo assim, não faz mal, ficámos amigos.
Chamaram-me a atenção dois homens deitados, embrulhados num cobertor rasgado. Sozinho na cidade senti mais frio. Um dos homens tinha um velho rádio na mão, mas estava desligado. Tinha um cão castanho muito quieto. Parecia doente:
- Olá! Eu sou o João.
Os homens não responderam. Deviam estar a dormir, mesmo com o frio e o barulho daquela música que parecia não ter fim. Ao lado dos homens deitados no chão estava um menino loiro que os olhava fixamente, sem parar, mas não dizia nada. Estava sujo, descalço e até cheirava mal. Eu sabia que havia meninos que não tinham prendas, que nunca comiam bacalhau, que nunca se sentiam com a família à volta de uma mesa. Aquele era, por certo, um deles:
- Olá! Eu sou o João.
O menino fugiu assustado. Não queria brincar ou, então, era muito envergonhado. Lá fiquei sem um amigo que também não acreditava no Pai Natal. Naquela mesma rua havia também uma senhora pequenina, toda vestida de preto, dirigi-me a ela:
- Olá! Eu sou o João.
A velhinha mandou-me embora e virou costas. Não parou, nem olhou.
Sentado num degrau de pedra, ali ao lado, estava um rapaz com barba preta e um casaco azul, sujo e já rasgado. Tinha a cabeça encostada e parecia não estar a fazer nada.
- Olá! Eu sou o João.
O rapaz de casaco azul, já estragado, olhou para baixo e nem me disse palavra. Também não queria falar comigo. Parecia-me estranho nada quererem de mim, com tão visíveis dificuldades. Eram as únicas pessoas que ali estavam paradas...
Mais longe vi ainda uma menina a chorar. Estava também muito suja, tinha uns sapatos rotos e ninguém lhe ligava nenhuma. Se calhar era por estar assim despenteada. Tinha a cama ali feita ao lado, por certo costumava dormir ali mesmo, em cima de papelões embrulhada em cobertores rotos e muito sujos. Aquela menina, tinha a certeza, também não recebia prendas e devia estar muito cansada. Fui até lá:
- Olá! Eu sou o João.
Mal olhou para mim a pobre menina. Senti-me muito só e muito frio. Tinha falhado a minha estratégia de falar com alguém, sem anunciar nada. Tina intenção de trocar o calor de algumas palavras e de convidar um deles para lanchar comigo. Tinha-me faltado o mérito e a frieza para conseguir tal êxito.
Já sem acreditar na cidade iluminada, sem carinho, perdido, fiquei muito longe de mim. A lágrima que segurei a custo, no canto do olho, acabou por cair. Gelou-me o peito. Deixei de gostar de passear pela cidade iluminada que voltou a parecer-me mais cinzenta que nunca. Afinal não era tão bonita, como me parecia.
Muito envergonhado, naquele dia gelado de 23 de Dezembro, tive vontade de contar uma história. Seria triste, mas podia começar como quase todas as histórias, por “Era uma vez... o Natal” e acabar com “Olá! Eu sou o João”

À MARGEM | SÍLVIA


Há momentos em que tudo parece escapar-se das mãos. Aquele dia tinha sido um cheque sem cobertura. Tínhamos andado de pressa. Envolvia-nos uma bruma desconfortável. Parecia, até, que os reclamos luminosos e as lâmpadas não estavam bem acesos. Aparentava não haver ninguém, como se toda a gente tivesse ido para outro planeta. A solidão colheu-nos de improviso. E como ela um inabalável desejo de fazer qualquer coisa diferente, indefinida, desde tomar um café a uma façanha heróica. Contemplamos a vida e comparámo-la a uma loja onde há tudo, mas não tínhamos a receita para vivê-la. Era o vazio.
Nessa noite, contrariamente ao habitual, o João vagueava sem destino. Era um daqueles dias em que todos os planos tinham falhado, em que parece não se ter feito nada para salvar o vazio do desconsolo. A rapariga de quem gostava tinha faltado ao compromisso. Esperou por ela uma hora para ir ao cinema. Do café tinham já saído os amigos, cada um para seu lado. Sentiu-se, nesse momento, o único habitante da terra e incomodava-o essa sensação.
Decidiu entrar num bar de alterne, casa de putas para quase toda a gente, e tomar um copo de qualquer coisa forte, para esquecer; com um pé no estribo do balcão, o João pôs-se a pensar: o que é que eu quero?!... Era inevitável beber um copo, outro, uma dezena... Normalmente ao décimo os problemas costumam esquecer ou, pelo menos, perder peso; descobrem-se até alegrias, escondidas não sei onde.
Carla, uma das meninas, decote até ao umbigo, beijou-o com ternura inusitada. Todas aquelas mulheres são de amores fáceis. A saia, de tão pequena, deixava mostrar belas e provocantes coxas, superiormente torneadas. Assim se convertessem, às vezes, as dores humanas!... O pior é que João, indiferente à bela companheira, ao duodécimo copo dum maltratado uísque, se sentiu ainda mais só. E um homem que se sente só, depois de ter bebido uma dúzia de copos, com o décimo terceiro à frente, tem de estar verdadeiramente mal.
Possivelmente, João, ignorava ser a solidão uma doença parecida com a urticária. Pode estar-se muito bem e aparecer, a qualquer momento, uma irritação em toda a pele, nascida de uma qualquer secreta alergia. É assim a solidão. Pode estar-se feliz e um minuto depois, um minuto apenas, chegar o mal-estar da solidão. João compreendeu: não estava a sentir-se só, estava só.
Esta revelação, afogada em álcool, tornou-se dolorosa. Pensava não estar no bar há mais de uma hora mas, quando olhou para o relógio, calculou já haverem passado mais de três. Era muito mais de meia-noite.
Saiu de um bar e foi para outro. Estivera lá havia quatro noites, não por se sentir só mas por querer a companhia de qualquer uma das meninas. Aquela com quem tinha estado nessa noite tinha sido muito agradável. Bastante bonita. E até capaz de dar algo que não deve esperar-se em situações tais: ternura. Tinha revelado uma cálida simpatia e outras coisas que se não podem dizer, por indiscretas.
João chegou e ficou de pé ao balcão; muitas mesas, ao redor delas muitas meninas, putas, como lhes chamam, para as diferenciar das outras mulheres, supostamente mais sérias, meninas que vão ganhando a vida com comissões no inflacionado preço dos copos que bebem com quem as convida, quanto mais copos, mais dinheiro, por isso gostam de quem lhes pague muitos copos. Há casos em que gostam mesmo do cliente e vão para a cama com ele, a troco de nada, por mera simpatia, se, na altura, não houver outro que pague o serviço. Tudo isto é variável porque também aquela gente tem sentimentos. Muito haveria para falar sobre isto...
As coisas ficaram pior ainda. Aquilo estava pouco concorrido. Dois ou três pares perdidos em tanta mesa. Em frente à pista, onde se dança, uma das mesas albergava o resto das meninas, segredando umas com as outras. O João foi sentar-se numa mesa, em frente delas. Só, apoiou o cotovelo no tampo e deixou cair a cara sobre a mão, magicando e tentando adivinhar se o que estava diante delas se parecia com um objecto ou com uma pessoa. Elas acabariam por dar a resposta. Se parecesse gente, Silvia, a menina que deveria estar entre elas e que dormira com ele quatro noites antes, sem qualquer recompensa, haveria de vir ter com ele, pensava. Recordou-a intensamente. Tinha a certeza de que, se ela ali estivesse e se aceitasse outro convite, a solidão o deixaria. Com a presença de Sílvia, voltaria ao mundo. Bem olhou para lá mas... não era possível reconhecê-la, tal a intensidade do álcool.
O senhor que serve às mesas do cabaré e que dirige as meninas, como hábil estratego, amavelmente se acercou a perguntar-lhe o que desejava tomar. Deve ter pensado que nem tudo ia bem e daí tão grande amabilidade. João não pediu que lhe trouxessem Sílvia, pediu antes que lhe aviasse um copo... uma garrafa... O senhor, muito experiente, aconselhou-lhe antes uma água.
A música começou a tocar. Os poucos pares que estavam nas mesas laterais, encostados à parede, foram para a pista dançar. De pronto, como que por milagre, descobriu o rosto de Sílvia por cima do ombro de um cavalheiro que entrava e a agarrava. Ar desleixado, muito velho. Sílvia também o viu e respondeu-lhe com um olhar indefinido. Ficou intrigado: será que o acusava de não ter avisado que vinha?
João ficou perdido. Se Sílvia estava com outro era seguro que não viria ter com ele. Mais uma calamidade. Sílvia foi levada pelo companheiro para o reservado e como este se sentava bem junto a ela e quase a beijava a falar-lhe. Não tinha dúvida: deveria estar a convidá-la para dormir. E esse convite, não feito por ele, magoava-o. Estiveram sentados muito pouco tempo. João olhou de soslaio como Sílvia se levantou: teria acertado? Viu como chegou ao balcão e falou com o dono do bar e fez as contas da noite. Mau sinal, pensou, porque elas fazem sempre as contas antes de sair. Cravou os olhos em Sílvia, acusadores. A desgraça que sentia trouxe-lhe a sensação de que Sílvia era muito mais bonita, pernas muito bem-feitas, lábios apetecíveis, corpo de modelo, cabelos soltos e negros, mas muito mais distante. Dava tudo para voltar a tê-la.
Estranhamente, Sílvia caminhou para ele e, sem dizer qualquer palavra, inclinou-se um pouco e beijou-o na cara. Nada mais. Saiu com o cavalheiro, muito velho e sujo. João sentia ainda aquele beijo cheio de uma ternura indesmentível, mágico, espontâneo. Um beijo que o trouxe de novo à terra, outra vez povoada por milhões de homens, risos, lágrimas.
Dias depois Sílvia fala a João da ternura que sentia pelo velho Joaquim e que, por isso, não podia voltar a sair com ele, com receio de o magoar, confessando que gostava mesmo do pobre velho. João aceitou a muito custo mas acabou por compreender, tentou demovê-la, mas de nada lhe valeu o esforço. Sílvia havia decidido tratar do seu Joaquim, como ternamente lhe ia chamando.
Muitas foram as vezes que teve de sustentar aquele velho avarento e solitário, muitas foram as vezes em que o viu criticar tanta despesa, tantos luxos, como dizia angustiado.
Numa manhã muito cinzenta, ao acordar, Sílvia dá com o seu companheiro morto. Havia tombado na noite como um passarinho, morrera sem que ninguém desse por isso.
João, dias mais tarde, vem reconfortar Sílvia no sentido de a voltar a prostituir. Esta recusa veementemente:
- Sou viúva do meu amor, não voltarás a ter-me.
No dia 23 de Setembro, pelo fim da tarde, uma Terça-feira, batem à porta. Sílvia, em trajes pouco convenientes, abre cautelosamente. Um senhor de bom porte, que veio a saber ser notário, esticou-lhe um maço de papéis, explicando perante os olhos espantados de Sílvia:
- É um testamento.
- Uma merda – respondeu Sílvia, empurrando-o porta fora, pensando ser mais um a tentar tirar proveito da enorme beleza física, que sabia possuir.
Foi difícil ao Dr. Sequeira convencer a menina de que as suas intenções eram sérias, mas acabou por entrar. Explicou, depois, perante a enorme incredibilidade de Sílvia, que o Sr Joaquim Ferreira, aquele velho avarento e pestilento que bem conhecia, lhe havia deixado em testamento, feito há vários meses, uma soma astronómica de bens, em dinheiro e imóveis. Qualquer coisa num nunca imaginara alguém poder possuir sozinho.

À MARGEM | CASAL VENTOSO


Casal Ventoso é um lugar, em Lisboa, onde não chega a vida e onde, todos os dias, se morre. Centenas de toxicodependentes procuram, de uma certa forma, o suicídio objectivo. São muitas as imagens chocantes do quotidiano no bairro e o testemunho impressionante dos seus residentes.
Enroscado na parede, Nando, trinta e sete anos mascarados do sessenta, precisa de alguém que o injecte, por causa de um defeito na mão. Há vinte e dois anos que se droga. Ficou agarrado, logo aos quinze, apesar de várias tentativas frustadas de cura.
Nando jurou-me que não roubava, mas não entrou em pormenores. Pedia na rua e arrumava carros ao pé da FIL. A custo lá me foi dizendo que a relação com a família era má, que os pais haviam perdido a capacidade de resistir à influência da droga na vida do filho:
- Não chegam os dedos das mãos e dos pés para contar as vezes que tentei largar isto... Mas é aqui, dentro da cabeça, que eu sinto a falta, não é no corpo. A droga faz-nos bem... A gente não sente nada, absolutamente nada... Nem sequer medo... Nada... Nem fome, nem frio, nem dores. Sentimo-nos muito bem. A primeira dose do dia, é pá, tem que ser no pescoço... Sabes!... já não tenho veias em lado nenhum, já piquei as pernas e os pés... Os braços já estão secos... E, aqui no pescoço, já só me faltam estas duas da frente. Até já espetei até no caralho!.. É verdade, não acreditas?.. A sério!.. Tenho veias duras por todo o lado.
O Chico, seu companheiro, ali ao lado, tinha melhor ar, era um tipo baixinho de cabelo curto, quase sem barba. Tinha ar de se lavar mais vezes que os outros, parecia ser mais organizado. Num discurso de muitos silêncios:
- Nem sei o que estou aqui a fazer. Eu não tenho nada a ver com estes gajos, fartava-me de ganhar dinheiro... Traficava e nunca consumia... Depois saí da prisão e estoirei tudo... Tinha casa... Agora estou metido nisto... Antes tinha dinheiro e não consumia, Agora não tenho um tostão e consumo... Adoro os meus pais, é verdade. São a melhor coisa do mundo. Um dia, puseram-me na rua. Já não aguentava mais. Mas eu percebo-os...
Pediu-me tabaco, dei-lhe o que tinha, um maço quase cheio que, prontamente, repartiu pelo companheiro com aquelas mãos imundas. E, refugiando-se, balbuciou baixinho:
- Aqui também há gente, também há amigos.