sexta-feira, 12 de setembro de 2008

À MARGEM | TEOREMA DE PITÁGORAS


Na esplanada onde estava havia um homem de estatura meã, robusto e congestionado que gritava, cheio de ira, para um outro, altíssimo, magríssimo, espantadíssimo. Tolices de fanáticos do futebol. Nesse tempo, não hoje, falar de coisas de futebol era falar de coisas dignas. Gritar de fanatismos, sobre fanatismos, com fanatismos, isso era e é coisa menor, indigna. Sobretudo se o fanatismo provier de um grande fenómeno democrático, repito democrático, que era o futebol.
A esplanada onde estava dobra-se para uma paisagem surpreendente: dali vê-se parte do estuário do Tejo na qual o rio forma uma caprichosa laçada. De súbito, ou não assim tão súbito, sobe-me à ideia a figura típica do meu antigo professor de matemática. Professor do colégio onde o velho Curado legou a parte mais estrelar do seu belo talento. Dizia ter demonstrado o teorema de Pitágoras. Alcoólico, de não reconhecido, falava dele como se o teorema fosse, e afinal é, uma pessoa, daquelas pessoas que têm alma.
Hoje ninguém sabe quem foi o capitão Curado. E esse ninguém envolve uma pazada de antigos alunos seus e simpatizantes, que aprenderam dele a matemática que os guindou a outros patamares. Mas o capitão marcou-me uma época e definiu-me um estilo. Além disso era um homem de honra. Tinha muito poucos amigos e para arredondar o tempo, fazia uns trabalhitos em madeira numa carpintaria por si montada na própria casa, num anexo, mesmo junto à despensa, onde se amontoavam papéis até ao tecto, cheios de orgulhosas contas e de riscos, de parceria com o inseparável garrafão de vinho. Sobre ele ficava sempre um copo voltado sobre o gargalo, onde, às escondidas, como o fazia no tempo da esposa, bebia copos atrás de copos, envergonhados. Vivia só. Por lá vagueava o Tareco, o inseparável gato preto, com quem falava largamente de matemática e de outras paixões. Então, o velho Tareco, roçava-se incansavelmente pelas pernas, como se agradecesse as matérias ensinadas pelo professor. Isto diariamente, durante anos a fio.
Eu gostava de falar com aquele homem alto e de andar pausado. Sentia orgulho em apertar-lhe a mão, em seguir na rua, a seu lado, ouvindo-lhe o discretear. Por vezes, ao começo da noite, à saída do colégio, eu via-o, a caminho de casa para avinhar a viuvez, a cumprimentar, cortês, quem passava. Não conseguia reprimir-me e gritava-lhe:
- Boa noite, capitão!
Ele parava, voltava-se lentamente para mim, saudava o puto discípulo e lá ia, desvanecido num sorriso bondoso, um homem efusivo e dominado pela matemática, nunca vergado na sua integridade exemplar. Eu ficava a olhá-lo até ele desaparecer no alto da rua, lá em cima, à esquerda.
Mas estava na esplanada, a olhar no Tejo, ouvia a berraria frenética, e lá se me devolve a velha história do nosso capitão:
“Estava eu a cervejar, na Place Rogier, p'raí uma superfície cinco vezes superior ao Trindade - onde eu estava e daí o recordar - e eis senão quando entram um burro e um burriqueiro por ali a dentro. Calmamente, o empregado de balcão estende ao burriqueiro, montado no seu burro, uma imponente caneca de cerveja e ao burro, que suportava o peso do seu burriqueiro, uma não menos imponente tigela... de cerveja, bem entendido. Beberam, arrotaram os dois, o burro fez um ronco medonho, e regressaram pelo mesmo caminho.”
A história do capitão Curado era extremamente dura, inacreditável, pessoal e intransmissível. Fiquei, um dia, com o peito cheio de vaidade pela distinção que me fez quando me disse, que esta história era mesmo verdade e não uma rotunda treta, como todos pensavam.
Dias depois vi-o, agradeci-lhe, ele sorriu, deu-me uma palmada no ombro, e disse-me:
- É bom ver-te crescer.
Gostava tanto de o rever, sentado comigo, naquela ou noutra esplanada, onde já não vou há anos. E falaríamos, certamente falaríamos acerca de coisas simples e belas como o episódio do burro; sobre o rio; sobre Pitágoras. Falaríamos e éramos, agora, os dois da mesma idade, porque o tempo nunca o tinha envelhecido. Os dois da mesma idade. Mas, sobretudo, dois amigos sentados na mesma esplanada a ver o rio.

À MARGEM | CIGANA


Alta, madura e enérgica, a enfermeira Rita saía do segundo esquerdo para o trabalho, como todos os dias. Do pátio, onde a roupa estendida descuidadamante mostrava a promiscuidade e pobreza dos vizinhos, saía Cristina. Ainda menina, peitos levantados duma florescente puberdade, enxugava lágrimas e mais lágrimas.
Rita, observou, atentamente, o choro da miúda. A sua experiência maternal dizia-lhe que aquele pranto escondia algo de grave. Inquiridora, judicial, com amigável severidade, deteve a garota, que cada vez chorava mais:
- O que é que tens? Para que são tantas lágrimas?
Com voz soluçada, depois de largo suspiro, Cristina confessa o delicado problema, como quem se lança à água de um barco naufragado:
- Estou muito mal e tenho que ir para a escola, senhora Rita. Estou a deitar muito sangue e o penso que pus está sempre a cair...
Será que a miúda já era mulher? Será que nem a mãe nem a professora a tinham prevenido? Como é uma experiência que sempre assusta quando não se espera, bem poderia ser isso, imaginara a enfermeira:
- A tua mãe não sabe? Não lhe disseste que te sentias mal?
- Ai, senhora Rita, matava-me se soubesse. Por Deus, não lhe vá dizer...
Um palpite medonho invadiu o peito e golpeou o rosto da surpreendida senhora. A voz endureceu, com uma irritada curiosidade na pergunta.
- Diz lá o que é que tens, rapariga?
Chorava com toda a alma. Depois, logo que pode conter alguns dos soluços:
- É que... o Luís... é que o Luís fez-me uma grande patifaria...
Rita, apesar da estranheza, ficou imóvel, numa dúvida intranquila. O seu filho, também Luís, era um rapagão de quinze anos, a mudar de voz, que às vezes chegava tarde à escola. Teria sido ele? Se fosse já o teria sabido, pensava ela para se consolar.
- Entra aí para a barraca da Cilita que eu já lá vou ter. E vê se deixas de chorar, que vou curar-te.
E se fosse? Seria terrível. O Sebastião, pai da Cristina, um homem habituado a desordens, não se incomodava nada de matar o Luís. Havia que averiguar isso a fundo.
Voltou a casa, o filho deveria estar por lá:
- Luís, anda daí.
Lá veio, como se o tivessem descoberto. Cabeça baixa, olhos bem postos no chão, envergonhado. A enfermeira olhava atentamente o filho com ar apreensivo:
- Luís, o que é que fizeste à Cristina?
A voz era inapelável. Não havia salvação possível. Luís estava compungido. Percebeu que não podia escapar. E, pelo aspecto da mãe, nada de bom seria de esperar.
- Já te digo!... Que fizeste à Cristina? Já me está...
Não era fácil explicar mas, por não haver saída, confessou o golpe:
- É que... pois é... há muito tempo que ela me dizia que eu nem homem era, nem nada... e depois... depois agarrava-me... e eu dizia-lhe que estivesse quieta.... ou que, então, lhe mostrava se era homem ou não.... acabei por....
A enfermeira não pediu mais quaisquer explicações ao filho que, assustado, sentindo as lágrimas a querer sair dos olhos, continuou com voz trémula:
- Foi ela... ela é que me procurou... muitas vezes... gozou-me, agarrou-me... e que não era homem... e que era maricas... Fiz asneira, pronto!
Não se conteve a pobre enfermeira e chorou desalmadamente.
- Vais ver, meu malandro, o que é ser homem. Acabou-se a escola e a canalhice. Se te sentes capaz de tantas coisas, vais saber o que é realmente usar calças. Hoje mesmo vais trabalhar. Hoje mesmo, nem mais um dia, para perderes a mania.
A enfermeira, enfurecida, pegou-lhe no braço, com empurrões cada vez mais violentos:
- Desaparece, vai-te daqui para fora, antes que te matem... meu sem vergonha!...
O Luís saiu mudo. Muito grave deveria ser o que tinha feito. Atravessou o pátio até à rua, com medo de encontrar Sebastião, o pai da Cristina, que sabia ser homem muito violento. Sentia-se outro, estranho, no próprio bairro onde tinha nascido. As mesmas ruas pareciam agora diferentes. A linha do comboio, os postes, as gentes, tudo parecia ver pela primeira vez. Mas, enquanto, na barraca de Cilita, Cristina chorava compulsivamente, um vaidoso e estranho orgulho lhe subiu as veias, num desvairado pensamento: “e se fumasse um cigarro?...”

À MARGEM | TRINCHEIRA


De pronto todas as cabeças desapareceram. Arregalou os olhos, levantou levemente a cabeça na tentativa de se localizar e de medir o perigo. Era preciso furar a barricada para se pôr a salvo. Perdido, ali, único sobrevivente dos ocupantes de um helicóptero que não tinha conseguido escapar aos mísseis. Queimados, nos destroços, tinham ficado onze jovens, valentes camaradas, de uns mal contados vinte anos. Portugueses numa Angola já perdida. Corria o ano de setenta e um.
No campo, os soldados inimigos corriam em todas as direcções. Um súbito e pavoroso clarão iluminou a noite escura, envolvendo os corpos. Alguns sem cabeça. Braços agitados confusamente como quem dança, macabra e sangrenta. Os seus camaradas tinham acertado em cheio.
Muito tenso, ficou entrincheirado num pequeno buraco aberto, quase providencialmente, por uma granada que ali caíra, minutos antes. Um abrigo divino no meio do inimigo.
O ruído metralhava os tímpanos. Cresceu o terror, cerrou punhos e dentes. Os rostos em volta, ensanguentados, reflectiam um pavor indescritível. Era a guerra. Não perseguiam ninguém. Vasculhavam feridos por entre mortos, em movimentos absurdos. Desapareciam, voltavam a aparecer, voavam em pedaços a mais um balázio bem sucedido.
Começou a ouvir a cadência ritmada e forte, de tanta proximidade, de uma metralhadora. Chorou de medo. Gritos e mais gritos apunhalaram a espinha dorsal. O pavor apertou-lhe o peito.
A muito a custo, conseguiu vestir um camuflado inimigo, roubado dum corpo morto ali mesmo, ao lado, caído. Reapareceram cabeças e corpos, saltavam à esquerda e à direita, uns sobre os outros.
Sem a arma, perdida no acidente aéreo, atirou-se indiferente ao perigo para fora do buraco, na ânsia desesperada de encontrar lugar mais seguro na praia, perto. Escondeu-se na primeira vala que encontrou, polvilhada de cadáveres. Por entre os corpos, alguém avançou para ele, negro, ensanguentado e armado até aos dentes. Ficou imóvel, gélido até a medula mais profunda dos ossos. Quase deixou de respirar. Acalentou lenta e ténue esperança de que o camuflado roubado antes lhe pudesse, por semelhança, fazer alguma protecção.
O homem, erguido por entre mortos, foi-se aproximando atirando algumas, poucas, palavras. Nem uma sequer percebeu. A cada passo da estranha personagem o seu coração reagia apertando o peito. O medo de ser descoberta a camuflagem, roubada, atirou-o para um pranto soluçado e violento. O homem, estranhamente enternecido, reconhecendo o inimigo que a pele não podia esconder, num português quase perfeito:
- Que fazes aqui?
Dúvida nenhuma de que tinha sido descoberto, tal a proximidade. Entre soluços:
- Vais matar-me?
- Para quê matar-te se nada tenho contra ti? Ambos desejamos, apenas, não morrer. Basta que fiquemos quietos para cumprir este desejo.
Largou a metralhadora, envolveu-o num abraço profundo:
- Amigo!

À MARGEM | UM DEUS DISTRAIDO


Duas raparigas estão na pista do aeroporto, a olhar para um avião. Uma e outra paradas no asfalto, atentam nos mais ínfimos pormenores da aeronave: as asas que não são complectamente horizontais, os rebites e as linhas de soldadura, o trem de aterragem, triangular, as turbinas, cujo centro forma um espécie de bico. Olham para a máquina como se duvidassem daquele monstro de metal, como se não estivessem certas de que é capaz de subir pelos ares, com elas lá dentro.
Este misto de atracção e receio, o desejo de voar refreado pelo medo de caír, é típico de qualquer baptismo de voo. Só que, neste caso, há uma pequena nuance: Clara e Joana têm incapacidades motoras. Talvez por isso, o olhar se demora um pouco mais na estrutura do avião, procurando uma segurança que elas próprias não sentem quando avançam pela pista em cadeiras de rodas. O piloto, compreende isso muito bem e sabe que as miúdas, ao verem-no trepar, à força de braços, pela escada acima, deixarão de lado todos os receios.
Assim foi, no dia dezasseis de Abril, num voo para a Madeira. As duas raparigas, escolhidas à sorte, de entre os jovens internados no Hospital do Alcoitão, deliraram com a viagem. É que, apesar de curta, ela deu-lhes a possibilidade de subir às alturas, de ver casas, estradas, carros, árvores, pessoas, tudo em miniatura como nos jogos do Lego, fê-las atravessar as núvens e perceber que não são feitas de algodão. Entre Lisboa e Funchal elas puderam esquecer-se, por uns minutos, das pernas que não andam e das asas que gostariam de ter. Estavam excitadíssimas, num estado de alegria e entusiasmo impressionantes.
Fez-me lembrar o Eagle’s Day. À semelhança e por cá o nosso António Faria e Mello, um português de Viana do Alentejo, paraplégico, desde que um médico, em setenta e sete, o deixou inválido, durante uma operação à coluna, num hospital sul africano, tinha então dezanove anos e era, na altura, piloto de um setecentos e trinta e sete. Depois de uma batalha borucrática, recuperou o brevet. Não se tem cansado de voar, sendo mesmo o segundo piloto deficiente da história da aviação a conseguir, sozinho, uma volta ao globo terrestre.
Fiquei muito satisfeito. Chegado à Madeira, tentei junto dos variadíssimos turistas americanos, que invadem a ilha, saber algo do Rick. Quase todos lhe conheciam o nome e o tinham como herói de guerra na defesa da bandeira de muitas estrelas. Um desses turistas, um homenzarrão, dos seus cinquenta anos, por entre uma montanha de cervejas, num mesa de um bar do hotel, aconselhou-me a Base das Lages, se quisesse saber alguma coisa mais da sua vida. Foi o que fiz pelo telefone, mais tarde, com pleno êxito, tendo conseguido pouca informação, mas a direcção do herói americano. Escrevi-lhe a contar-lhe e a agradecer-lhe o que vira na viagem, mas as cartas vieram devolvidas porque, entretanto, soube-o meses depois, morrera de cancro.
Regressei à viagem com raiva em relação ao Rick. Deus tinha-se distraído duas vezes…

terça-feira, 9 de setembro de 2008

À MARGEM | OLÁ, EU SOU O JOÃO


Gostava de passear pela cidade iluminada, apesar daqueles dias gelados de Dezembro. Todas as cores do mundo a enfeitar as ruas que, muitas vezes, me pareceram apenas cinzentas. Os sorrisos colados à cara de toda aquela gente apressada e o sentir do cheiro bom das castanhas assadas. Sem perceber porquê sentia-me, de certa forma, feliz.
Às vezes, fazia de conta que estava sozinho no meio da multidão. Divertia-me ver aquelas senhoras tão atrapalhadas a embrulhar tantos presentes e os senhores a atender muita gente ao mesmo tempo, muito depressa.
Naquele dia gelado decidi falar com os mais carenciados. Não achava grande piada ver o Pai Natal, em todas as esquinas das ruas enfeitadas, dentro das lojas a pegar nos meninos ao colo. Alguns chegam a chorar. Não tinha graça nenhuma. Nunca acreditei naqueles homens gordos de barba branca e vestidos de encarnado, sempre me pareceram um bocado estúpidos. Nesse dia conheci um menino, que também se chamava João, e dei-lhe um rebuçado. Também ele não acreditava no Pai Natal. Gostei muito dele apesar de não o ter visto nunca mais. Mesmo assim, não faz mal, ficámos amigos.
Chamaram-me a atenção dois homens deitados, embrulhados num cobertor rasgado. Sozinho na cidade senti mais frio. Um dos homens tinha um velho rádio na mão, mas estava desligado. Tinha um cão castanho muito quieto. Parecia doente:
- Olá! Eu sou o João.
Os homens não responderam. Deviam estar a dormir, mesmo com o frio e o barulho daquela música que parecia não ter fim. Ao lado dos homens deitados no chão estava um menino loiro que os olhava fixamente, sem parar, mas não dizia nada. Estava sujo, descalço e até cheirava mal. Eu sabia que havia meninos que não tinham prendas, que nunca comiam bacalhau, que nunca se sentiam com a família à volta de uma mesa. Aquele era, por certo, um deles:
- Olá! Eu sou o João.
O menino fugiu assustado. Não queria brincar ou, então, era muito envergonhado. Lá fiquei sem um amigo que também não acreditava no Pai Natal. Naquela mesma rua havia também uma senhora pequenina, toda vestida de preto, dirigi-me a ela:
- Olá! Eu sou o João.
A velhinha mandou-me embora e virou costas. Não parou, nem olhou.
Sentado num degrau de pedra, ali ao lado, estava um rapaz com barba preta e um casaco azul, sujo e já rasgado. Tinha a cabeça encostada e parecia não estar a fazer nada.
- Olá! Eu sou o João.
O rapaz de casaco azul, já estragado, olhou para baixo e nem me disse palavra. Também não queria falar comigo. Parecia-me estranho nada quererem de mim, com tão visíveis dificuldades. Eram as únicas pessoas que ali estavam paradas...
Mais longe vi ainda uma menina a chorar. Estava também muito suja, tinha uns sapatos rotos e ninguém lhe ligava nenhuma. Se calhar era por estar assim despenteada. Tinha a cama ali feita ao lado, por certo costumava dormir ali mesmo, em cima de papelões embrulhada em cobertores rotos e muito sujos. Aquela menina, tinha a certeza, também não recebia prendas e devia estar muito cansada. Fui até lá:
- Olá! Eu sou o João.
Mal olhou para mim a pobre menina. Senti-me muito só e muito frio. Tinha falhado a minha estratégia de falar com alguém, sem anunciar nada. Tina intenção de trocar o calor de algumas palavras e de convidar um deles para lanchar comigo. Tinha-me faltado o mérito e a frieza para conseguir tal êxito.
Já sem acreditar na cidade iluminada, sem carinho, perdido, fiquei muito longe de mim. A lágrima que segurei a custo, no canto do olho, acabou por cair. Gelou-me o peito. Deixei de gostar de passear pela cidade iluminada que voltou a parecer-me mais cinzenta que nunca. Afinal não era tão bonita, como me parecia.
Muito envergonhado, naquele dia gelado de 23 de Dezembro, tive vontade de contar uma história. Seria triste, mas podia começar como quase todas as histórias, por “Era uma vez... o Natal” e acabar com “Olá! Eu sou o João”

À MARGEM | SÍLVIA


Há momentos em que tudo parece escapar-se das mãos. Aquele dia tinha sido um cheque sem cobertura. Tínhamos andado de pressa. Envolvia-nos uma bruma desconfortável. Parecia, até, que os reclamos luminosos e as lâmpadas não estavam bem acesos. Aparentava não haver ninguém, como se toda a gente tivesse ido para outro planeta. A solidão colheu-nos de improviso. E como ela um inabalável desejo de fazer qualquer coisa diferente, indefinida, desde tomar um café a uma façanha heróica. Contemplamos a vida e comparámo-la a uma loja onde há tudo, mas não tínhamos a receita para vivê-la. Era o vazio.
Nessa noite, contrariamente ao habitual, o João vagueava sem destino. Era um daqueles dias em que todos os planos tinham falhado, em que parece não se ter feito nada para salvar o vazio do desconsolo. A rapariga de quem gostava tinha faltado ao compromisso. Esperou por ela uma hora para ir ao cinema. Do café tinham já saído os amigos, cada um para seu lado. Sentiu-se, nesse momento, o único habitante da terra e incomodava-o essa sensação.
Decidiu entrar num bar de alterne, casa de putas para quase toda a gente, e tomar um copo de qualquer coisa forte, para esquecer; com um pé no estribo do balcão, o João pôs-se a pensar: o que é que eu quero?!... Era inevitável beber um copo, outro, uma dezena... Normalmente ao décimo os problemas costumam esquecer ou, pelo menos, perder peso; descobrem-se até alegrias, escondidas não sei onde.
Carla, uma das meninas, decote até ao umbigo, beijou-o com ternura inusitada. Todas aquelas mulheres são de amores fáceis. A saia, de tão pequena, deixava mostrar belas e provocantes coxas, superiormente torneadas. Assim se convertessem, às vezes, as dores humanas!... O pior é que João, indiferente à bela companheira, ao duodécimo copo dum maltratado uísque, se sentiu ainda mais só. E um homem que se sente só, depois de ter bebido uma dúzia de copos, com o décimo terceiro à frente, tem de estar verdadeiramente mal.
Possivelmente, João, ignorava ser a solidão uma doença parecida com a urticária. Pode estar-se muito bem e aparecer, a qualquer momento, uma irritação em toda a pele, nascida de uma qualquer secreta alergia. É assim a solidão. Pode estar-se feliz e um minuto depois, um minuto apenas, chegar o mal-estar da solidão. João compreendeu: não estava a sentir-se só, estava só.
Esta revelação, afogada em álcool, tornou-se dolorosa. Pensava não estar no bar há mais de uma hora mas, quando olhou para o relógio, calculou já haverem passado mais de três. Era muito mais de meia-noite.
Saiu de um bar e foi para outro. Estivera lá havia quatro noites, não por se sentir só mas por querer a companhia de qualquer uma das meninas. Aquela com quem tinha estado nessa noite tinha sido muito agradável. Bastante bonita. E até capaz de dar algo que não deve esperar-se em situações tais: ternura. Tinha revelado uma cálida simpatia e outras coisas que se não podem dizer, por indiscretas.
João chegou e ficou de pé ao balcão; muitas mesas, ao redor delas muitas meninas, putas, como lhes chamam, para as diferenciar das outras mulheres, supostamente mais sérias, meninas que vão ganhando a vida com comissões no inflacionado preço dos copos que bebem com quem as convida, quanto mais copos, mais dinheiro, por isso gostam de quem lhes pague muitos copos. Há casos em que gostam mesmo do cliente e vão para a cama com ele, a troco de nada, por mera simpatia, se, na altura, não houver outro que pague o serviço. Tudo isto é variável porque também aquela gente tem sentimentos. Muito haveria para falar sobre isto...
As coisas ficaram pior ainda. Aquilo estava pouco concorrido. Dois ou três pares perdidos em tanta mesa. Em frente à pista, onde se dança, uma das mesas albergava o resto das meninas, segredando umas com as outras. O João foi sentar-se numa mesa, em frente delas. Só, apoiou o cotovelo no tampo e deixou cair a cara sobre a mão, magicando e tentando adivinhar se o que estava diante delas se parecia com um objecto ou com uma pessoa. Elas acabariam por dar a resposta. Se parecesse gente, Silvia, a menina que deveria estar entre elas e que dormira com ele quatro noites antes, sem qualquer recompensa, haveria de vir ter com ele, pensava. Recordou-a intensamente. Tinha a certeza de que, se ela ali estivesse e se aceitasse outro convite, a solidão o deixaria. Com a presença de Sílvia, voltaria ao mundo. Bem olhou para lá mas... não era possível reconhecê-la, tal a intensidade do álcool.
O senhor que serve às mesas do cabaré e que dirige as meninas, como hábil estratego, amavelmente se acercou a perguntar-lhe o que desejava tomar. Deve ter pensado que nem tudo ia bem e daí tão grande amabilidade. João não pediu que lhe trouxessem Sílvia, pediu antes que lhe aviasse um copo... uma garrafa... O senhor, muito experiente, aconselhou-lhe antes uma água.
A música começou a tocar. Os poucos pares que estavam nas mesas laterais, encostados à parede, foram para a pista dançar. De pronto, como que por milagre, descobriu o rosto de Sílvia por cima do ombro de um cavalheiro que entrava e a agarrava. Ar desleixado, muito velho. Sílvia também o viu e respondeu-lhe com um olhar indefinido. Ficou intrigado: será que o acusava de não ter avisado que vinha?
João ficou perdido. Se Sílvia estava com outro era seguro que não viria ter com ele. Mais uma calamidade. Sílvia foi levada pelo companheiro para o reservado e como este se sentava bem junto a ela e quase a beijava a falar-lhe. Não tinha dúvida: deveria estar a convidá-la para dormir. E esse convite, não feito por ele, magoava-o. Estiveram sentados muito pouco tempo. João olhou de soslaio como Sílvia se levantou: teria acertado? Viu como chegou ao balcão e falou com o dono do bar e fez as contas da noite. Mau sinal, pensou, porque elas fazem sempre as contas antes de sair. Cravou os olhos em Sílvia, acusadores. A desgraça que sentia trouxe-lhe a sensação de que Sílvia era muito mais bonita, pernas muito bem-feitas, lábios apetecíveis, corpo de modelo, cabelos soltos e negros, mas muito mais distante. Dava tudo para voltar a tê-la.
Estranhamente, Sílvia caminhou para ele e, sem dizer qualquer palavra, inclinou-se um pouco e beijou-o na cara. Nada mais. Saiu com o cavalheiro, muito velho e sujo. João sentia ainda aquele beijo cheio de uma ternura indesmentível, mágico, espontâneo. Um beijo que o trouxe de novo à terra, outra vez povoada por milhões de homens, risos, lágrimas.
Dias depois Sílvia fala a João da ternura que sentia pelo velho Joaquim e que, por isso, não podia voltar a sair com ele, com receio de o magoar, confessando que gostava mesmo do pobre velho. João aceitou a muito custo mas acabou por compreender, tentou demovê-la, mas de nada lhe valeu o esforço. Sílvia havia decidido tratar do seu Joaquim, como ternamente lhe ia chamando.
Muitas foram as vezes que teve de sustentar aquele velho avarento e solitário, muitas foram as vezes em que o viu criticar tanta despesa, tantos luxos, como dizia angustiado.
Numa manhã muito cinzenta, ao acordar, Sílvia dá com o seu companheiro morto. Havia tombado na noite como um passarinho, morrera sem que ninguém desse por isso.
João, dias mais tarde, vem reconfortar Sílvia no sentido de a voltar a prostituir. Esta recusa veementemente:
- Sou viúva do meu amor, não voltarás a ter-me.
No dia 23 de Setembro, pelo fim da tarde, uma Terça-feira, batem à porta. Sílvia, em trajes pouco convenientes, abre cautelosamente. Um senhor de bom porte, que veio a saber ser notário, esticou-lhe um maço de papéis, explicando perante os olhos espantados de Sílvia:
- É um testamento.
- Uma merda – respondeu Sílvia, empurrando-o porta fora, pensando ser mais um a tentar tirar proveito da enorme beleza física, que sabia possuir.
Foi difícil ao Dr. Sequeira convencer a menina de que as suas intenções eram sérias, mas acabou por entrar. Explicou, depois, perante a enorme incredibilidade de Sílvia, que o Sr Joaquim Ferreira, aquele velho avarento e pestilento que bem conhecia, lhe havia deixado em testamento, feito há vários meses, uma soma astronómica de bens, em dinheiro e imóveis. Qualquer coisa num nunca imaginara alguém poder possuir sozinho.

À MARGEM | CASAL VENTOSO


Casal Ventoso é um lugar, em Lisboa, onde não chega a vida e onde, todos os dias, se morre. Centenas de toxicodependentes procuram, de uma certa forma, o suicídio objectivo. São muitas as imagens chocantes do quotidiano no bairro e o testemunho impressionante dos seus residentes.
Enroscado na parede, Nando, trinta e sete anos mascarados do sessenta, precisa de alguém que o injecte, por causa de um defeito na mão. Há vinte e dois anos que se droga. Ficou agarrado, logo aos quinze, apesar de várias tentativas frustadas de cura.
Nando jurou-me que não roubava, mas não entrou em pormenores. Pedia na rua e arrumava carros ao pé da FIL. A custo lá me foi dizendo que a relação com a família era má, que os pais haviam perdido a capacidade de resistir à influência da droga na vida do filho:
- Não chegam os dedos das mãos e dos pés para contar as vezes que tentei largar isto... Mas é aqui, dentro da cabeça, que eu sinto a falta, não é no corpo. A droga faz-nos bem... A gente não sente nada, absolutamente nada... Nem sequer medo... Nada... Nem fome, nem frio, nem dores. Sentimo-nos muito bem. A primeira dose do dia, é pá, tem que ser no pescoço... Sabes!... já não tenho veias em lado nenhum, já piquei as pernas e os pés... Os braços já estão secos... E, aqui no pescoço, já só me faltam estas duas da frente. Até já espetei até no caralho!.. É verdade, não acreditas?.. A sério!.. Tenho veias duras por todo o lado.
O Chico, seu companheiro, ali ao lado, tinha melhor ar, era um tipo baixinho de cabelo curto, quase sem barba. Tinha ar de se lavar mais vezes que os outros, parecia ser mais organizado. Num discurso de muitos silêncios:
- Nem sei o que estou aqui a fazer. Eu não tenho nada a ver com estes gajos, fartava-me de ganhar dinheiro... Traficava e nunca consumia... Depois saí da prisão e estoirei tudo... Tinha casa... Agora estou metido nisto... Antes tinha dinheiro e não consumia, Agora não tenho um tostão e consumo... Adoro os meus pais, é verdade. São a melhor coisa do mundo. Um dia, puseram-me na rua. Já não aguentava mais. Mas eu percebo-os...
Pediu-me tabaco, dei-lhe o que tinha, um maço quase cheio que, prontamente, repartiu pelo companheiro com aquelas mãos imundas. E, refugiando-se, balbuciou baixinho:
- Aqui também há gente, também há amigos.

À MARGEM | UMA HORA AMENOS


Desci às sete cidades para provar a morcela com ananás, depois de galgar a divisória das lagoas, cuja saúde não anda muito boa. De costas para uma pequena capelinha, com a inscrição “Vinde Espírito Santo”, apontei a máquina fotográfica ao coreto junto à igreja matriz. Foi nesse instante que surgiu, saído inesperadamente de uma ruela, um homem montado numa bicicleta. O homem pedalava energicamente. No quadro da bicicleta ia uma criança. O homem trazia na mão direita uma pequena corda, de aí uns dois metros apenas. Preso à corda, num quase galope, um cavalo castanho. Não um cavalo de carga, daqueles usados no trabalho do campo, mas um belo alazão, cheio de nobreza, altivo: As linhas todas de um puro sangue.
Durou nem sequer dez segundos esta cena crepuscular: O homem pedalando energicamente na bicicleta, uma criança que se sentava no quadro, o cavalo de crinas ao vento, preso por uma corda curta, muito curta, num galope crescente, o conjunto perdendo-se na bruma crepuscular, para os lados da lagoa. Tudo muito rápido. Do interior do meu carro, alugado na véspera, pela janela aberta, os últimos acordes do requiem de Mozart empurravam os ventos para a Atlântida. Na rádio alguém disse: “Uma hora a menos nos Açores”. E pensei eu, já a caminho do Pico: o que é uma hora a menos, poucos instantes, nesta imponderável eternidade.
A manhã crescia num dos maiores santuários de baleias do mundo. Muitos eram os sons captados por hidrofone a partir dos barcos da aventura, os barcos de Sérgio, que levam os turistas muito perto das baleias piloto, dos rauces, dos golfinhos pintados, das orcas falsas, são os barcos que partem das Lages do Pico, só que agora sem arpuadores. A um sinal de mestre João ou de outro qualquer dos vários vigias existentes nos pontos de observação do Pico e do Faial, os barcos partem ao encontro dos grandes animais marinhos. A única arma é, agora, a máquina fotográfica. Por isso é que as águas do Pico e do Faial voltaram a ser um santuário.
Ouviam-se, agora, vozes de euforia, vindas de uma pequena embarcação, de onde se disparavam, já não arpões, mas máquinas fotográficas. Um pouco adiante na Ponta da Queimada, mestre João, o homem que sempre vigiou baleias, quando elas eram alvo dos arpuadores, continuava no seu posto atrás dos binóculos. Não havia, já, foguetes de sinalização, mestre João era então um vigia reciclado ao serviço do turismo de aventura.
Nessa manhã vimos passar uma baleia a três ou quatro milhas da costa. Dois picarotos militantes levaram-me pelos trilhos abertos na primitiva terra de lava onde, desde os tempos de Frei Gigante, nasce o célebre verdelho. Toda essa linha de costa fronteira ao Faial, de S. Caetano à Madalena é um prodígio de realização humana, um imenso labirinto de muretes de basalto, protegendo as videiras do vento forte do canal. São milhões de pedras negras alinhadas na matriz vulcânica do Pico.
Disse-me um dos meus amigos de aventura que os técnicos da UNESCO viram lá razões bastantes para a classificação da zona como Património da Humanidade e que nada justificava que o processo não avançasse. Disse-me ainda que, cálculos feitos na Universidade dos Açores, confirmavam a sua velha ideia: Se as pedras que erguem os muros do chão de lava, onde cresce o vinho verdelho, fossem alinhadas uma após outra, poderiam dar a volta ao mundo na linha do equador.
Ora, ao escutar a fórmula do meu amigo e ao tentar perceber a importância das baleias no brilho do olhar de mestre João, no posto de vigia, fiquei como S.to Agostinho diante do menino na praia, porque percebi muito bem um e outro.
Diante daquele chão de lava interroguei-me sobre o modo como um homem, com raízes profundas na sua própria ilha e sem nunca de lá ter saído, pode dar a volta ao mundo. Esse foi o mistério que, já viradas as costas aos cais da Madalena do Pico a caminho da Horta, me foi acompanhando e que me segue ainda. Não há cálculos matemáticos, nem binóculos, que me ajudem a resolvê-lo.
Contemplando agora, já na Horta, as novas e antigas pinturas da marina, da recatada magia de Porto Pim, onde não vislumbrei a mulher de branco, entrei na casa de nós todos: O porto de abrigo da mais estranha comunidade de lobos-do-mar e de outras andarilhas criaturas.
O Peter, esse Café Sport, de José Henrique, ele que do mar sabe segredos tamanhos, ele que na grande rebentação, de há uns anos, fotografou, trazido por um vento ciclónico de duzentos e cinquenta quilómetros por hora, o rosto de Neptuno, erguido contra o Monte da Guia, numa onda de sessenta metros de altura. Dessa noite chuvosa da Horta guardo o postal de Neptuno que José Henrique me ofereceu dizendo-me:
- Muita coisa você vai ver, no novo ano que aí vem, se não for cego. O novo ano terá os dias a seguir uns aos outros, não principiando um sem que acabe o outro; metade dos dias serão brancos e outra metade pretos, chamando-se a esta metade noite. A noite será a grande amiga das pessoas feias, porque ninguém dá conta da sua fealdade. Não se aflija, porém, o meu amigo que de noite não se perde a vista, vê-se como de dia, o que atrapalha é o escuro e o sono. A lua andará constantemente a mudar de quarto, como uma concubina…
Foram alguns copos, sorrisos fraternos de muitos andarilhos do mar, muitas histórias, fragmentos de vidas de paixões e aquele discurso bem-disposto e aparentemente decorado que gozei nessa noite chuvosa de Angra. Ora, eu que andei a mudar de ilha como quem muda de camisa, cuido que o mais valioso património que colhi, foi a sábia interpretação dos elementos da vida. No Peter, depois da aprazada e saborosíssima sopa de peixe, para a sossega, renovava-se na parede, via Internet, o desenho do mar, a calmaria ou borrasca prometidas, os ventos dominantes, o bom e o mau tempo no canal.
Quanto ao mais, dei comigo a cismar como Raul Brandão, quando por lá andou no verão de vinte e quatro, que por baixo dos meus pés o vulcão continuava a cozinhar, a fogo brando, não sei que refugado. Enquanto olhava o balouçar dos muitos mastros, pela janela, pensava que não era terra firme o chão da ilha em que me sentava e que o mais certo é que sonharia, uma noite dessas, que iria eu próprio de ilha pelo mar fora.

À MARGEM | ESCADAS DE ALFAMA

Gostava muito de falar com ele. Encontrava-o várias vezes na Brasileira, quando saía da escola. Era um homem antiquíssimo, com uma suave sabedoria, nada impunha, nada exigia. Recusara, havia muito, o carácter peremptório das afirmações; apreciava coisas singelas como, por exemplo, ver o fluir enigmático dos dias, ou olhar o rio.
Era um homem enorme, pesado, tranquilo. Quando novo, jogava boxe, chegara a conquistar um campeonato de Lisboa. Nomeava pugilistas de outro tempo, vibrava com isso mas, para ele, havia dois absolutamente régios: Ray Sugar Robinson e Joe Louis. Aí, era o aleluia na conversa. E a conversa nunca mais acabava. Um rememorar de factos relacionados com combates de boxe, um tropel de situações extraordinárias, que me fez passar a respeitar aquele desporto, limpando de mim a imagem de jogo violento de alguns socos na cara.
Se, como se diz, a partir de uma certa idade, os homens começam a ter equivalências zoológicas, aquele homem estava na etapa do elefante. Disse-lhe isto, certa tarde, e ele sorriu, na sua inigualável aparência feliz. A sua serenidade era praticamente inviolável, e a segurança das coisas em que acreditava impossível de ser atingida. Sorria. Sorria com frequência.
Conversávamos muito sobre o mundo naquelas tardes amenas de cheiro a Tejo, do universo mesquinho de homens mesquinhos. Nada de dizer mal: criticar com zombaria e mordacidade, isso, sim. A meio da conversa ele disse-me:
- Levei muita porrada, porrada a dar com um pau. Mas não conseguiram fazer-me nada que não se cure.
Amarinhámos, por ali fora, os dois até à escadaria que sai de Alfama e conduz à pequena meseta que leva o nome de Portas do Sol, e olhámo-nos com amizade e respeito. Um dia, pediu-me:
- Você é capaz de me ajudar a subir esta escada?
De súbito, entendi que também o grande campeão, fortíssimo, envelhecera de repente. Nunca imaginara aquele corpanzil a pedir ajuda. Aprendi que a velhice é isso mesmo: pés de lã e, logo - logo, desasados e desamparados, pumba!, estamos velhos. Disse-lhe:
- O senhor nunca precisou de ajuda de ninguém, mas fico muito feliz por acompanhá-lo na subida da escada.
Parou, observou-me detidamente, e respondeu:
- Você é mesmo meu amigo.
- É bom ter um amigo - disse eu.
- É. É o melhor que há. Oiça!, nunca devemos maltratar um amigo - disse ele.
- Tenho poucos amigos, sabe? As amizades não são fáceis de construir e mais difíceis são, ainda, de manter - disse eu.
E ele:
- Eu creio que você está enganado... no ter poucos amigos, é claro! Mas, enfim, concordo que a amizade não se vende, não se troca, não se compra.
Reparei que o meu amigo, antiquíssimo, estava tão feliz, tão, que parecia, mais do que regozijado, jubiloso. Os seus olhos fatigados de velho fatigado rebrilharam moços e, direi, chamejantes.
- O pior de tudo - disse ele - é a história das mulheres. A gente, quando gosta delas, nunca deixa de gostar. Mas, com a velhice, é só olhar, meu amigo, é só olhar... Olhar é bom, claro!, também é bom. Mas nunca é tão bom como... como... como o resto..., como comer, é claro! Aquela história de que os olhos também comem tem muito que se lhe diga, tem muito...
Riu com satisfação imensa. Riu muito, olhos semicerrados, braços abertos, gesticulação branda e larga, porém veemente, porque desejava sublinhar muito bem e com malícia o que ia dizendo.
Por esses dias, disse-me um amigo comum:
- Quando este homem morrer vamos sentir muito a sua falta.
Assim era. Assim foi. Um dia, dois, três a seguir, ele não apareceu. Havia morrido como um pássaro de coração estoirado. Soubemos tarde de mais. Mas soubemos, isso soubemos, que, onde quer que ele estivesse, e certamente estava em algum lado cheio de nuvens claras e de músicas suaves, onde quer que fosse esse sítio, esse território efusivo e tépido, ele estaria a observar-nos, com a ternura meiga e bondosa de um homem enorme e poderoso que gostava e sabia amar os outros.

À MARGEM | INFÂNCIA PROIBIDA

Era, então, um garoto sonhador e sensível que trepava penosamente por uns mal encaminhados onze anos. Em frente à afogada meninice, crescia o mundo dos grandes. Esse mundo vivo, confuso, a que queria chegar, estava do outro lado da esquina que limitava a sua liberdade e da qual, por uma estrita e rigorosa proibição, estava vedado passar. Penas severíssimas caíam sobre seus tímidos ombros se arriscasse cruzar aquela linha de fogo, depois da qual poderia perder-se. Para lá dela, dizia-lhe a intuição, estava um mundo obscuro e secretamente proibido.
Um par de anos antes tinha ido viver para casa de D. Emília e Sr. Joaquim, uma família sem filhos que tinha de tratar por tios. Eram excessivamente secos, austeros, apegados a velhas normas onde não cabia a ternura. A princípio ainda teve o calor de que carecem os filhos longe dos pais, já que o inesperado de terem conseguido um rapaz suavizou os ásperos costumes.
Teve que aprender a respeitar regras e mais regras: não entrar, sem autorização especial, na sala sempre escura e misteriosa, ou na estéril biblioteca ou na fúnebre casa de jantar, só usada numa rara visita de algum hóspede solene; não pisar os encerados, cujo brilho era mais importante que qualquer dos seus sorrisos; não entrar pela porta principal; não escorregar pelo corrimão da escada; não tocar nos cortinados e, o pior, não brincar com os seus amigos, cúmplices, que o convidavam para sair, sugerindo mundos onde se podia saltar, jogar, brincar e conhecer coisas proibidas, fortemente desejadas.
Uma pesada topografia impedia-o de fazer tudo o que dá gosto a um miúdo solitário de onze anos. O olhar, sempre vigilante e impiedoso, de sua tia, preocupava-se, sobretudo, em manter incólume o seu domínio; em manter a imobilidade perpétua dos móveis, tal como os tinha acomodado e em ver bem limpo o seu bibe, sempre azul, a lembrar farda.
Um dia a família cresceu. Do norte, empurrados pela desertificação interior, chegaram a casa um senhor com o filho de idade semelhante à sua. Naquele lapso de tempo, em que a novidade não degenerou em hábito, a felicidade dos parentes que se juntam, depois de larga separação, até aí desligados, quase antípodas, criou horas calmas e cordiais, tendo irmanado novos desejos e preocupações. A amizade com seu novo colega, as coisas fabulosas que contou sobre terras que não conhecia, fizeram-lhe crer que a inusitada compreensão dos tios, a afabilidade e as inesperadas facilidades para violar o código que, até aí, regia a casa, podiam perdurar pelos anos fora.
Mas as coisas foram de outro modo. E logo veio o golpe mais duro. Rafael, que tinha de tratar por primo, que pensara companheiro com quem dividiria o pão e a vida, um garoto esperto, roubou-lhe os poucos privilégios que já tinha conseguido, depois de ter posto em jogo uma paciente diplomacia com D. Emília. Todos os mimos, toda a atenção, todos os passaportes para as zonas proibidas e todas as imunidades para fazer travessuras, dispensadas ao Rafael e a si não, estimularam-no um lastimável complexo de rejeitado. A sensibilidade ferida, a ternura sem resposta, fizeram-no sentir marginalizado, tal era torturante o permanente estado de injustiça a que estava sujeito.
Foi-lhe crescendo, então, a intenção de fugir. Converteu-se numa necessidade imperiosa, quando fez, cheio de inocência, algo que se transformou para os de casa como acto de intolerável hipocrisia.
Tinha então, apesar de tenra idade, alguma pelugem que lhe cobria o rosto. Pegou no rodo de barbear, sempre à vista na casa de banho, com que o Sr Joaquim tirava as barbas, e urdiu imitá-lo. Se bem sucedido na sua decisão, pensava, havia a esperança de criar motivo em casa para, pelo menos uma vez, merecer rasgados elogios de façanha tão singular. Ensaboou a cara da mesma maneira que havia visto e limpou, em poucos minutos, todos os pêlos.
Satisfeito e de ar triunfal, sentou-se, no seu lugar de sempre, na mesa, no momento mais importante que podia haver em casa: a refeição.
Não disse nada. Frente a Rafael, sorriu com um ar triunfal, vingativo, voluptuoso, que intrigou seu primo. Este, de pronto, com uma olhadela sagaz, descobriu a causa e, seguro de o comprometer, anunciou acusadoramente:
- Olha tia, o primo fez a barba!
Todos os olhos convergiram para a sua cara de pobre garoto. Jorrava de satisfação, que lhe saía por olhos e gestos. E, quando esperava felicitações entusiastas, do tipo “que grande homem!”, a voz cortante de sua tia, enquanto o sorriso mudava para os lábios do Rafael de forma mais trocista e gloriosa, impôs um irredutível:
- Sai já da mesa. Ficas sem comer.
E, num comentário escandalizado, justificou o castigo:
- Meu Deus, como mudaram as coisas! Querer ser homem com meia dúzia de anos! Meu Deus, olha ao que isto chegou! Já não há respeito, decência, nada!
- Há que dar-lhe um ensinamento! - disse o Sr Manuel, amigo do Sr Joaquim.
Humilhado, retirou-se arrastando a amarga derrota, com sabor ácido de uma rebeldia impotente. Cada batida do coração era um protesto para quem o não queria compreender e uma certeza de que ninguém o queria. Para os seus botões, desabafou:
- Tenho que me ir embora de uma vez por todas.
Sonhava ir para um circo e tornar-se domador de leões para que um dia, muitos anos depois, os seus tios e primo, ao assistirem ao circo, ao descobrirem que o valente domador das feras era precisamente ele e perante os estrondosos aplausos do público, se arrependessem de não o terem querido.
Estava nestes pensamentos quando Rafael o incomodou de novo, acusando-o de lhe ter batido. D. Emília sovou-o mais uma vez. Era a hora de ir, de abandonar para sempre aquele mundo hostil, em que qualquer coisa, por mais banal que fosse, era mais estimada que a sua meninice.
Saiu porta fora e num segundo chegou à esquina. Com o desespero de um náufrago e a valentia dum herói, coroada pela violação da fronteira, dos homens grandes, com onze anos apenas, foi à aventura de fazer-se santo e de se tornar domador de leões.
A rua, enquanto andava, tornava-se mais larga e as casas pareciam crescer. O seu desejo de explorar o mundo desconhecido, onde viviam os homens e outros meninos, cujas vidas ansiava descobrir, era então um desejo apagado na dúvida de orientar seus passos.
Tinha apenas caminhado uns tantos metros quando um espectáculo deslumbrou a sua atenção: vários homens enchiam uma bola de papel, bem colorida e grande. Com palavras de incentivo, ajudando-se uns aos outros, preparavam a viagem do vistoso globo multicolor. A cena fascinou-o. Com coisas tão extraordinárias, como era bom andar livre pela rua...
Esqueceu tudo a contemplar o balão, subindo ao céu com uma fogueira no ventre, tornando mais brilhante o vermelho, o branco, o azul e todas as outras cores. Pôs-se a sonhar que se fosse naquele balão, mais perto de Deus, poderia pedir ao Criador que lhe desse uma boa infância. Sentir-se-ia dono da cidade.
Embebido a contemplá-lo, de olhos fitos no seu corpo ventrudo, regressou à terra arrastado por um valente puxão de orelhas. Ao virar a cara, deparou-se com o olhar acusador do seu tio que, sem uma única palavra, o levou de volta.
Pronto! Seu coração parecia outro balão que queria fugir do peito. Um medo enorme o invadiu ao supor que mais grave que se ter barbeado era ter saído de casa sem autorização. O silêncio do Sr. Joaquim atormentava-o ainda mais. Atrás dele, que quase lhe arrancava a orelha, deparou com um inusitado movimento de pessoas em frente de casa. Reconheceu vizinhos, pais de seus amigos e até as criadas da rua, todos com rostos preocupados. Disseram quase em coro, quando o viram:
- Andámos à tua procura! Onde te meteste?
Ficou pasmado! Seria possível ter causado tanta ânsia? Uma suave e doce calma e a embriagadora suspeita de poder, finalmente, ser desejado agitou o seu desconcertado coração: será que gostavam de si? Imaginou a sua tia de braços abertos, disposta a apertá-lo contra o peito, como nunca tinha feito antes, e a dar-lhe os beijos que o fariam o mais feliz dos meninos.
E logo, seu tio, com um seco safanão:
- Anda rapaz, vai acalmar a tua tia. A desgraçada está quase doida com medo de te terem roubado.
Trémulo, contente, culpado, satisfeito, entrou em casa. Rafael antecipou-se e gritou:
- Tia está aqui o Rui.
Sentada na cadeira, estava sua minha tia afogada em lágrimas. Como um criminoso, por saber ser a causa dessa pena, acercou-se dela com a garganta presa, coração galopante, sem mais ânimo que deixar-se cair nos seus braços.
Ela levantou a cabeça e, ao ver-me, gritou:
Seu malandro! Vou dar-te tamanho castigo que vais perder a vontade de passear. Vais ver...
Nessa noite fugi de casa. Nunca mais voltei.


segunda-feira, 8 de setembro de 2008

À MARGEM | MENINOS DA AREIA

Naquele dia quente de Agosto aeroporto do Sal era um turbilhão de gente, malas, sacos, meninas com laçarotes, meninos de grandes dentes brancos e sorrisos escancarados. Gente que ficava, gente que continuava para o Mindelo e eu ali, no meio da barafunda, já a perceber que me ia dar bem com o cheiro gostoso que vinha não sei de onde, com a denguice morna de quem nos levava até à carrinha do hotel, sorrindo, sorrindo sempre... Estava finalmente em Cabo Verde.
Os dias que passei no Sal vivi-os na praia de areia fina e mar a perder de vista, sempre rodeada dos meninos da areia. Meninos pobres. Meninos sorridentes. Meninos que chegavam de mansinho e se sentavam pertinho de mim, com as mãos cheias de conchas, que trocavam por lápis ou papel ou, suprema alegria, por livros. Meninos em tronco nu, que corriam de vez em quando para um mergulho no mar que é de todos, como o sol, a areia e as conchas.
Uma das manhãs, de sol abrasador, vivo e difícil de suportar, um dos meninos veio oferecer-me um barquinho de lata em troca de um bloco de papel e da lapiseira dos meus riscos, que lhe tinha dado na véspera. Estava um dia de brasa, mas o menino, porque vinha dizer obrigado, vestia blusinha branca e calçãozinho surrado. Com ele trazia a irmã, de vestido aos folhos e um grande laçarote colorido no alto do cabelo crespo. Calçados ambos, ela com peuguinhas brancas e folhinho de renda a espreitar do sapato roto. Foi um encontro bonito, de olhares e sorrisos mansos, sem pressas nem grandes gestos. Soube logo ali que o sonho maior do menino era jogar a bola no Benfica e ganhar dinheiro para dar aos outros para matar a fome.
Sonho esse que era o de todos os meninos que corriam pela praia imensa a oferecer conchas aos turistas ou a jogar à bola com aquela habilidade e destreza que têm todos os pequenos eusébios de todas as áfricas.
Conchas e bolas descansavam na areia para correr até ao pontão onde o peixe estava a ser descarregado. Alguns meninos já seguravam as alcofas com grandes peixes prateados, todos iguais. Em casa, nas casas pobres e escuras, esperavam-nos as mães, mães de famílias numerosas, amontoadas em pequenas divisões de onde espreita o perfil de um violão ou de um cavaquinho e por onde escapa o cheirinho bom da cachupa.
E todos os dias, com o nascer do sol, renascem os sonhos destes meninos pobres, frente ao mar que, sabem eles, será, seria a porta aberta para uma vida melhor. “Leva-me contigo, amigo. Mas volta a trazer-me!”
Fartos de sol e de areia, que é o que mais a terra dá, como cantava o poeta, os meninos das ilhas da claridade, irrequietos, sonhadores, tão sôfregos de partir e voltar e de jogar no Benfica, continuarão a inventar barquinhos de lata que trocarão por folhas de papel e lápis e, quem sabe, se essas folhas e esse lápis não serão o princípio de cantos e rimas de futuros poetas.

À MARGEM | SALOMÉ


Era tão cedo que as próprias águas pareciam adormecidas. Um pequeno barco rasgava, já o horizonte, não muito longe de um sol quase frio, cuja luz, em pouco tempo, se tornaria intensa de mais.
Quando saíu da tenda, deixou atrás de si, sobre a areia, a pouca roupa que vestia e, nua, em breve, ultrapassou o marulhar redondo das ondas e mergulhou no azul casto do mar.
O barco aproximara-se bastante da praia e o irmão dela e um amigo esperavam-na, espantados, na areia.
Dois pescadores, tripulantes do pequeno bote, gritavam de desejo e de espanto, atraídos por aquela visão de todo inesperada. Ela continuava, lenta, indiferente, como se não se apercebesse do poder que tinha para os excitar.
A pouco e pouco, chegou-se à beira, pôs-se em pé. A linha de água dava-lhe pela cintura. A temperatura do mar endurecera-lhe o corpo, os seios esculturais e rijos, o ventre de amêndoa seco, bem assente em ancas bem feitas, sobre pernas luzidias. A boca a morder-lhe os cabelos.
O pescador mais novo ergueu-se no barco, baixou os calções e começou a masturbar-se.
O irmão, apressado, aproximou-se com uma toalha para a proteger, porém, ela voltou-se para o lado e deixou-se ficar mais nua que nunca. Ele insistiu que a irmã se tapasse, se recolhesse na tenda, mas ela pediu-lhe para que a deixasse ficar assim, ali, até que o pescador acabasse de tirar dela todo o prazer.

À MARGEM | O ESCOCÊS ERRANTE


Ouvi falar pela primeira vez do escocês errante, há uns anos, numa concorrida área de fumadores do aeroporto de Zurique. Haveria de voltar a ouvir uma referência ao seu nome em Tóquio, em relação a uma das suas muitas voltas ao mundo. A nicotina tinha criado um maior nível de solidariedade e de promiscuidade e, por via disso, as conversas entre aqueles desconhecidos, juntos pelo vício, brotavam com mais fluidez e espontaneidade que se não houvesse proibição de fumar.
Fora do tempo, o relógio de cada viajante marcava por certo uma hora diferente, e do espaço, as zonas de espera dos aeroportos são quase terra de ninguém, aquela noite transformou-se numa tertúlia em que o idioma dominante era o franco-espano-inglês, com variações em italiano ao cuidado de um bósnio, residente em Roma.
Do escocês errante falou um cidadão belga, Monsieur Robert Grillé, chefe de vendas de uma fábrica de chocolates. Fumava esses puros finos e afilados, que muitos compram por gostarem das latas que os guardam.
O escocês errante chamava-se, ou chama-se ainda, pois mais que provavelmente será vivo ainda, Hiram McGuffin. O seu curriculum atestava tratar-se de um atarefadíssimo comerciante de Glasgow, condenado a vaguear de avião em avião, de aeroporto em aeroporto, sem desembarcar em qualquer parte, como castigo por haver abandonado a sua família para se dedicar aos seus negócios de viageiros, o que tinha provocado o internamento da esposa e a inevitável propensão dos seus três filhos à delinquência e à toxicodependência.
O senhor Grillé não podia demorar-se muito, porque já anunciavam o seu voo no painel, Mas quando o vimos desaparecer silenciosamente, dentro de uma gabardina azulada, velha e fora de moda, pensámos tratar-se do mesmíssimo Mcgufin, que viajava incógnito e havia querido enganar-nos.

À MARGEM | VINTE E NOVE VEZES


Visitei, um dia destes, um velho amigo que já não via há trinta anos, desde os tempos, já remotos, da escola. Por diversas vezes o havia procurado, para relembrar as traquinices cúmplices dos nossos doze, treze anos, mas vi sempre goradas essas tentativas. Provavelmente teria ido para o estrangeiro e lá fizera vida, pensava eu, já que o seu pai, tal como o meu, teria ido procurar sustento noutras paragens, naqueles tempos difíceis.
Foi num casual almoço de negócios, dos muitos que o meu estômago tem que aguentar, tantas vezes a custo, que numa conversa ligeira sobre a meninice veio à baila o nome do meu amigo Carlos Alberto. A pedido do meu cliente dei mais algumas referências e, para espanto meu, concluímos ser seu vizinho.
Fiquei, então, a saber que trabalhava num matadouro de frangos em Tomar. Estranhei, não que menospreze a profissão, mas antes por não parecer ser futuro para aluno brilhante que era. Esclareceu-me então, o meu cliente, que a sorte tinha sido madrasta para o meu amigo. Pai e mãe tinham desaparecido num acidente de viação, enquanto muito novo, contava uns magros quinze anos e teve, por isso, que ir trabalhar para arranjar sustento para os dois irmãos, mais novos, que ficaram ao cuidado da avó. “Uma vida bem difícil para um puto da idade dele”, rematou o meu companheiro de almoço.
Nesse mesmo dia telefonei para o matadouro e confirmei os dados recolhidos ao almoço. Logo ali, decidi visitá-lo de surpresa, no dia seguinte. Fiz tudo para conseguir chegar cinco minutos antes da normal hora de saída: seis da tarde.
À sete ou oito minutos para as seis entrei no escritório do dito matadouro. Não foi difícil convencer a menina Luísa a deixar-me surpreendê-lo no seu próprio posto. Cumpri as formalidades do vestir de bata, pôr um barrete e desinfectar os sapatos e entrei, por ali a dentro, à procura do meu amigo. O pavilhão era enorme e nele circulavam, pendurados, milhares de frangos.
Foi fácil reconhecê-lo nas suas inconfundíveis feições. Mais velho, careca, olhar ainda sereno, mas muito mais profundo. Não me reconheceu à primeira vista mas, poucos segundos depois, atirou confiante:
- O que tem sido feito de ti, João?
Cumprimentou-me com o pulso já que as mãos, deformadas e grandes, pingavam sangue num vai e vem constante, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo... Em cada vez dois frangos por mão subiam da bancada para um carril de ganchos. Por entre aquele amontoado de carne, acrescentou, sem abrandar o ritmo:
- Estou muito contente de te ver, nem sabes quanto. Espera aí que vamos beber um copo a minha casa. Hás - de gostar de conhecer a minha mulher e de ver a minha filha pequenita. Casei tarde, sabes?! É uma princesa!...
Nem respondi. Fiquei ali a olhar para ele. Já todos tinham saído quando fizemos o mesmo. Deixámos batas e gorros, não sem antes agradecer à Luísa, tão reconfortável reencontro. Pelo caminho falámos de muita coisa. Fomos a pé, que a casa dele dista do matadouro uns quatrocentos metros. Mais tarde voltaria para buscar o carro. Arranquei-lhe uma sonora gargalhada quando lhe contei que o meu filho erra um ferrenho benfiquista, ele um sportinguista de trinta costados.
Entrámos em casa. Modesta, muito limpa e de um bom gosto notável. Uma miúda nova, a filha com certeza, pensei eu, saltou-lhe para os braços. O Carlos baixou-se, beijou-a demoradamente nos olhos, lindos de se ver, e não conseguiu levantá-la. Voltou-se para mim, agarrou-me o braço e, com os olhos rasos de água, disse-me:
- João, estes braços já não valem uma merda... Nem podem com a menina... Estas mãos... João, que já levantaram milhões de frangos, à cadência de vinte e nove por minuto.

À MARGEM | O HOMEM DOS GELADOS


Ontem à noite, à hora da telenovela, fui com a minha namorada e um amigo aos livros, ao parque. Estava a pôr-se uma noite de vento e chuva. Chovia em Lisboa. A cada bátega mais forte os grupos abrigavam-se nos beirais dos stands e as meninas das editoras puxavam a cobertura de plástico que protegia da chuva os poetas mais amados e os monos de armazém, edições reluzentes da Bíblia e dicionários a prestações. O meu amigo já tinha dado corda aos sapatos debaixo do guarda chuva, depois de termos comentado a pressa com que a polícia montada se pôs ao fresco.
Sou levado a apostar que a noite do parque, nesse instante de um galope impetuoso da polícia montada, se tornou exclusivamente noite dos filhos da chuva. Nada podia ser mais dramático para o homem dos gelados. E, justamente, diante da chuva transformada em metáfora espelhada no corpo dobrado sobre um poço sem fundo de baunilha e chocolate, senti, como raras vezes o havia sentido, o frio que pode provocar nos ossos a frase de Daniel Draic: “Ser excluído dos livros, mesmo daqueles que não fazem falta é uma enorme tristeza, uma solidão dentro da solidão.” É que, levado entretanto pela intempérie, o homem dos gelados, tornou-se aos meus olhos, sob a chuva do parque, a única criatura do mundo, de cujo olhar estava ausente a necessidade de livros. Ali ficou dobrado sobre a caixa dos gelados, num poço sem fundo. Dali, inesperadamente desapareceu, sabe-se lá se para dentro de romance em saldo. E, então, transformou-se aquele lugar, aos meus olhos, numa inesperada ficção a que chamei “Saudação à chuva no país dos livros.”
Nunca uma ida à feira me apaziguou tanto o coração.
Surpreende-me o gesto daqueles que não têm com os livros uma intimidade antiga. Irrita-me o tipo que exibe, em voz alta, a sua própria biblioteca e mais ainda aquele que pavoneia uma atrevida cultura de badana. Irrita-me essa espécie de condenação subliminar à compra.
Éramos aí uns duzentos, à chuva.
Na noite de ontem senti que fazia parte de uma espécie de comunidade em passeio. A comunidade dos que, passado o incómodo inicial, se deixaram ir com a chuva, chapinhando o prazer dos livros; movidos apenas por um estranho impulso de liberdade.
Se houvesse um coreto no parque, teríamos ficado ali, em rodas, à chuva, à espera que uma pequena banda incendiasse a noite. E, ali, talvez, o homem dos gelados pudesse sentir apaziguado o coração.

À MARGEM | O RUSSO


Madrid, acabara de jantar. Tomei o caminho do hotel, naquele Sábado frio de fins de Setembro. Não estava tempo para passeio digestivo. Além da temperatura desagradável, uma chuva miudinha, certeira e contínua, que já me estragara o repasto sob as arcadas da Plaza Mayor da capital espanhola, impelia-me para o conforto de um ambiente aquecido. Além disso, sentia no corpo o cansaço de quem já levava trinta dias de cigano, atravessando meia Europa, de leste para ocidente e de regresso a casa.
Com os meus botões, pensava em coisas banais, cogitações interrompidas pelos acordes de uma viola, o que me obrigou, primeiro, a parar, para escutar, e, depois, a dar outra direcção à marcha. Assim o exigi a mim próprio, que aquilo não podia ser coisa que pedisse ao transeunte puxar da carteira ante um qualquer cidadão desenraizado da sociedade, desejoso de ouvir o som metálico da moeda a bater no fundo da sua caixa de esmolas.
As cordas daquela viola distendiam-se à força com a sensibilidade de dedos treinados em escola. Confirmei-o quando me abeirei do executante. Pensei ser seguramente um músico do leste no desemprego, ante um quadro inesquecível e digno de um filme de Fellini: um músico sentado num banco de madeira, o pé esquerdo sobre um pequeno apoio, como mandam as normas, tocando para uma plateia única, da qual sobressaía um pequeno grupo de marginais, maltrapilhos buscando abrigo nas arcadas, esquecendo a puta da vida no calor da música, em silêncio, como nós, e uns quantos transeuntes mais que, entretanto, havia elevado o número de espectadores para próximo da vintena.
Quando a guitarra se calou todos aplaudiram, mas só eu terei feito o gesto adequado ao estender uma nota de duas mil pesetas, o preço afixado num papel, escrito à mão, por um CD que incluía o trecho que escutara, o terceiro de uma lista de treze obras de sua autoria. Fiquei, então, a saber que era russo e que se chama Alexander Orlov. Posso garantir que o CD tem qualidade e que vale muito mais que o preço que paguei.
Pelo contrário, quem estendeu o braço para depositar uma moeda onde quer que fosse arrependeu-se. “Isso não, por favor. Sou músico, vendo o meu trabalho”, disse o russo, com um sorriso pálido nos lábios, mas muito ferido na sua dignidade.
A uma esquina da Plaza Mayor, uma viola chorava, em finais de Setembro de umas férias cansadas, qual balalaica gemendo a nostalgia russa, nas mãos daquele corpo enorme, de rosto orgulhoso e barbudo.

À MARGEM | CAMISETA 10


É preciso conhecer Buenos Aires para entender o mistério dos seus mitos. Percorri, com calma, as ruas inigualáveis de La Boca e sentei-me nas margens sujas de Riachuelo para tentar perceber a força duma saudade que vem dos tempos em que os marinheiros genoveses se instalaram no rio de La Plata, edificando as suas construções em latão, alumínio e ferro, na sua maior parte roubados aos navios que apodreciam nas águas sujas do porto, e mais tarde pintadas com cores garridas de uma alegria inexistente, roxos, laranjas, verdes e azuis misturados ao longo de Avellaneda.
Por entre um pensativo cigarro, com os putos a chilrear à volta, veio-me à ideia Benito Quintela Martin, que espalhou pelo mundo os traços duma policromia única. Fixei o olhar no beco que entra pelo bairro até ao largo onde nasceu o Boca Juniors, a equipa de Maradona e do povo. Lembrei Caminito que Gardel cantou de forma sensual e melancólica fazendo do tango outro hino da Argentina. Mi Buenos Aires Querido, é o sentir dos descamisados. Mi Noche Triste é, das mais variadas formas, o fim de uma era e o começo de outra. O fim de uma quando o corpo do pibe de Abasto, o bairro que fica junto ao mercado central e que tem hoje uma estação de metropolitano com nome do imortal Gardel, entrou nas águas chocas e mal cheirosas do La Plata, com milhares de argentinos, de lenços na mão, a dedicarem-lhe o derradeiro adeus, e o princípio de outra por dar lugar ao Astor Piazzola que levou o tango para a Europa, um tango diferente, estilizado, sensual e polémico.
Ali, no meu lugar, naquele fim de tarde, sentado à beira rio, era já possível ouvir os acordes chorosos dos bandoneones e as letras sanguinárias das milongas. Era possível ver os meninos da Colonel Salvadores a trocar, descalços, a bola de borracha sobre as linhas apertadas do comboio que atravessa La Boca, por entre montes de entulho e casas arruinadas.
Estava longe da avenida Rivadavia, uma das visitas obrigatórias, que termina no Parque Colón, na Casa Rosada e na Plaza de Mayo, onde as mães desesperaram pelos filhos desaparecidos no tempo dos generais, repetindo o gesto de Eva Peron em 1945, protestando contra a breve detenção do marido, longe do cemitério onde repousa Evita com seu epitáfio, “Don’t cry for me Argentina!”, imortalizado por Tim Race e Lloyd Webber, num musical que correu o mundo. Pulavam naquelas ruas os mesmos putos, os mesmos sonhos, as mesmas cores, os mesmos mitos.
Buenos Aires é uma cidade fantástica, de avenidas largas, noites suaves e um povo alegre e culto, orgulhoso do seu país como ninguém mais no planeta. Uma paixão mística pelos seus mitos que nos traz, ainda nos dias de hoje, até mesmo na genialidade moderna de Astor Piazzola, recentemente falecido, a fantástica sedução do tango.
Ébrio de tantas cogitações à volta dos mitos argentinos nem dei por um puto da rua, igual a tantos os outros das grandes cidades, apenas mais orgulhosos da sua rua, trazia na cara a amargura dos dias difíceis e o sorriso da esperança de ser contemplado na teimosia, tocava-me insistentemente na perna que pendia do muro da margem do rio La Plata. Quando, por segundos, olhei para ele, atirou:
- Amigo, dá-me uma moeda por favor... É para poder comprar aquela camiseta às riscas, número 10.
Em volta, por entre muitos símbolos argentinos, lá estavam inúmeras camisolas da Argentina, todas enormes, a lembrar Diego Maradona, que tentaram reconstruir até ao pormenor, com os mesmos fragmentos de pessoa que foram pelos ares quando lhe rebentou no estômago uma carga de cocaína. O puto da bola de borracha apontava para elas exibindo uns trocados que já conseguira de alguns turistas. Espantado perguntei-lhe:
- Para que queres tu uma camisola tão grande?
Sem hesitação, como se tivesse estudado há muito o discurso:
- Vestir a camiseta azul às riscas, número dez, é tocar no céu!
Obriguei-o, com muito custo, a vesti-la. O garoto teimava em não o fazer porque não a querer macular com o corpo suado e sujo. A camisola chegava-lhe aos pés. Os olhos brilhantes e vivos do puto fugidio tocaram efectivamente o céu. Despiu-a, embrulhou-a religiosamente, correu como louco até desaparecer no fim da rua.
Voltei a sentar-me. O cair da tarde e o brilho cintilante dos olhos do garoto lembraram-me Eva Peron que o cancro roubara a vida aos trinta e três anos depois ascensão meteórica que a levou dum bairro de lata até ao trono em que nenhuma mulher se sentara, Che Guevara que tinha os mesmos trinta e três anos quando o exército boliviano o fuzilou em La Higuera e Maradona que a toxicodependência tinha valido meses e meses de verdadeiro sofrimento argentino. Todos eles, argentinos, tinham saído da humildade, dos arrabaldes de Buenos Aires, para o topo do mundo e, todos eles, tinham visto o fim da sua carreira no auge dela e, todos eles, tinham tido uma necessidade enorme de contacto com o povo que os admiravam.
Para muitos meninos do bairro, e não só para aquele puto, vestir a camisola número 10 do mítico Maradona, que marcava golos com mão de Deus e pés de génio é, ainda hoje, tocar no céu...

À MARGEM | A MÃE


Era um dia de pouco sol, de um tristonho fim de Setembro, que o Verão há muito se tinha ido embora. Empurrado por um programa matinal de rádio, visitei uma casa de crianças abandonadas, num dos bairros pobres da cidade de Lisboa. Mais de uma dúzia sob a protecção de uma só senhora. Usavam todos um bibe azul e branco, que cobria a roupa que D. Emília, a mulher que descobre a miséria daqueles miúdos, recebe dos vizinhos e vai moldando ao corpo de cada um. Usavam todos sandálias, embora os rapazes preferissem sapatilhas para jogar à bola. Transformava lençóis rotos em batas, que os meninos levavam para a escola, ali mesmo ao lado. Cortava e cosia todos os bocadinhos para criar panos de louça e estava sempre pronta para acudir aos calções rasgados e às nódoas da sobremesa nos bibes coloridos. Ainda não sei se é por lhes conhecer a nudez se é por aquele ar acolhedor, que todos lhe contam os segredos e a tratam por mãe.
Podia ler-se nas paredes rachadas e nas janelas, que deixavam entrar água e que por isso tinham de ser vedadas com cobertores, as grandes dificuldades daquela casa. Alguma coisa haveria de ser resolvida lá para a Primavera, dizia a D. Emília, com os mil contos que uma senhora, uma antiga menina daquela casa, que ainda a tratava por mãe, lhe tinha mandado do Canadá, como resultado de uma festa que lá organizara, com o intuito de ajudar a casa que lhe tinha dado a vida, como dizia na carta que transportava o cheque. Quando se trabalha com amor, tudo se resolve – rematava com um contentamento enorme a D. Emília.
Mas a história também se revela nos sorrisos de todas as crianças que por lá passam e no orgulho de D. Emília que apontava, nas fotografias do grupo, com vários anos, as pessoas, algumas famosas, que lhe passaram pelas mãos e a quem a vida trouxera sucesso.
Um garoto franzino, de olhar reguila, cabelo muito preto e quase rapado, vindo de um tratamento de choque para os muitos piolhos que trazia, quando chegou ao lar, soube-o depois estar lá há pouco mais de quinze dias, contava-me com visível agrado que nunca tinha dormido numa cama e que também ali tinha comido arroz doce pela primeira vez. Adorava sopa de chocolate, dizia, o nome com que baptizava a delícia da sopa de feijão, que saía dos enormes panelões de D. Emília, fumegantes na velha, mas muito limpa, cozinha e das mãos divinas de D. Emília.
De repente, entrou um rapaz de uns mal contados quinze anos. Apareceu de bicicleta, ofegante, com uma prenda debaixo do braço. Disse que, como era o dia de anos da D. Emília, a mãe lhe tinha dado dinheiro e que a bicicleta era do irmão mais velho. Ela deixou cair uma lágrima, que não conseguiu disfarçar, e abraçou fortemente o seu menino contra aquele peito gasto de tantas canseiras, como se não soubesse que o Diogo não tinha mãe, nem irmão, nem ninguém.

À MARGEM | O ISQUEIRO


Caía calma a tarde no estuário do Tejo. Era Setembro. O Sol já se escondera para além da Caparica, deixando a silhueta do majestoso Cristo Rei a dominar o rio, tranquilo daquele Outono, cheio de barcos, que o sulcavam para lá e para cá num vai e vem constante.Nas ruas, indiferentes, as pessoas acotovelavam-se na ânsia de chegar primeiro. Os cacilheiros lá iam devorando a multidão de homens sós, apressados, indiferentes, anónimos, quase loucos.Sozinho, vagueava por ali a alimentar a grande paixão pela Baixa Pombalina. Erguia-se, a meus olhos, mais bela que nunca, por entre sombras e réstias de sol espetadas no Chiado. Fiquei por ali largos minutos admirando rostos na multidão, tal carreiro de formigas. Tão diferentes, deixavam, em cada passo, atropelado e lesto, adivinhar uma imensidão de vidas, de paixões, de sonhos.Subi, a passo compassado e lento, da Praça do Comércio até ao Rossio. Os edifícios, divinos, deixavam uma sensação indescritível de gosto e de talento. Ali estivera a mão de homens sérios e competentes, como poucos.Parei na pastelaria mais famosa do Rossio, visita obrigatória de gente endinheirada. Pedi um café. À minha frente, mesmo ali, a cidade dos homens continuava vertiginosamente louca, distante. Puxei pelo cachimbo, o mais preferido e companheiro de muitas jornadas, comprado em Cuba, feito na Holanda, como tantas das coisas que se vendem no país de Fidel, e preparei-o para fumar. Uma cerimónia normalmente lenta, que faço pensativamente a gosto .Uma miúda da rua, com uns magros dez anos, com outra às costas com pouco mais de um ano, atada por um pano muito sujo, que se adivinhava irmã, andava por ali. Mal a vi quando me pediu esmola, como tantos outros que povoam a cidade de gente anónima. O meu não, feito de forma maquinal com a cabeça, mal teve tempo de ser apreendido pela pobre garota, tal a pressa com que o diligente funcionário teve em afastá-las, para que não perturbassem o sossego de tão estimável clientela.Peguei no isqueiro, um Simon Tissot Dupond de ouro, que um velho amigo me havia oferecido quando entrei na ternura dos meus quarenta anos. Fiquei vidrado ao olhar para ele. A escultórica e rara beleza daquela autêntica peça de arte confundia-se, agora, com o rosto sujo das crianças que me tinham abordado segundos antes. Facas autênticas apunhalaram a minha mente confundida.Um isqueiro de ouro!... Qualquer coisa que um banal fósforo substituiria, com igual ou superior eficácia.Rebusquei a memória visual à procura daquelas garotas da rua, tão vulgares como tantas outras, mas tão importantes para mim no momento. Incomodado, alheio a tudo o que me envolvia, não me saíam da cabeça os olhos vivos da mais pequena, dois bugalhos de luz, que quase lhe saíam das órbitas, e os olhos mais lassos da mais velhota, lagoas de ternura, na esperança de receber alguns trocados. Aquele olhar amassado em tristezas eternas, aqueles corpos maltratados e sujos e aqueles pés descalços e gastos acusavam-me, torturavam-me e obrigavam-me a pensar em tudo o que poderia resolver o valor daquele isqueiro, banal na sua vil utilidade. Assaltou-me, então, uma pergunta mordaz que me obrigou a arrumar cachimbo e isqueiro: E se fossem os meus filhos em vez delas?
Tive vergonha.
Merda!