
Duas raparigas estão na pista do aeroporto, a olhar para um avião. Uma e outra paradas no asfalto, atentam nos mais ínfimos pormenores da aeronave: as asas que não são complectamente horizontais, os rebites e as linhas de soldadura, o trem de aterragem, triangular, as turbinas, cujo centro forma um espécie de bico. Olham para a máquina como se duvidassem daquele monstro de metal, como se não estivessem certas de que é capaz de subir pelos ares, com elas lá dentro.
Este misto de atracção e receio, o desejo de voar refreado pelo medo de caír, é típico de qualquer baptismo de voo. Só que, neste caso, há uma pequena nuance: Clara e Joana têm incapacidades motoras. Talvez por isso, o olhar se demora um pouco mais na estrutura do avião, procurando uma segurança que elas próprias não sentem quando avançam pela pista em cadeiras de rodas. O piloto, compreende isso muito bem e sabe que as miúdas, ao verem-no trepar, à força de braços, pela escada acima, deixarão de lado todos os receios.
Assim foi, no dia dezasseis de Abril, num voo para a Madeira. As duas raparigas, escolhidas à sorte, de entre os jovens internados no Hospital do Alcoitão, deliraram com a viagem. É que, apesar de curta, ela deu-lhes a possibilidade de subir às alturas, de ver casas, estradas, carros, árvores, pessoas, tudo em miniatura como nos jogos do Lego, fê-las atravessar as núvens e perceber que não são feitas de algodão. Entre Lisboa e Funchal elas puderam esquecer-se, por uns minutos, das pernas que não andam e das asas que gostariam de ter. Estavam excitadíssimas, num estado de alegria e entusiasmo impressionantes.
Fez-me lembrar o Eagle’s Day. À semelhança e por cá o nosso António Faria e Mello, um português de Viana do Alentejo, paraplégico, desde que um médico, em setenta e sete, o deixou inválido, durante uma operação à coluna, num hospital sul africano, tinha então dezanove anos e era, na altura, piloto de um setecentos e trinta e sete. Depois de uma batalha borucrática, recuperou o brevet. Não se tem cansado de voar, sendo mesmo o segundo piloto deficiente da história da aviação a conseguir, sozinho, uma volta ao globo terrestre.
Fiquei muito satisfeito. Chegado à Madeira, tentei junto dos variadíssimos turistas americanos, que invadem a ilha, saber algo do Rick. Quase todos lhe conheciam o nome e o tinham como herói de guerra na defesa da bandeira de muitas estrelas. Um desses turistas, um homenzarrão, dos seus cinquenta anos, por entre uma montanha de cervejas, num mesa de um bar do hotel, aconselhou-me a Base das Lages, se quisesse saber alguma coisa mais da sua vida. Foi o que fiz pelo telefone, mais tarde, com pleno êxito, tendo conseguido pouca informação, mas a direcção do herói americano. Escrevi-lhe a contar-lhe e a agradecer-lhe o que vira na viagem, mas as cartas vieram devolvidas porque, entretanto, soube-o meses depois, morrera de cancro.
Regressei à viagem com raiva em relação ao Rick. Deus tinha-se distraído duas vezes…
Este misto de atracção e receio, o desejo de voar refreado pelo medo de caír, é típico de qualquer baptismo de voo. Só que, neste caso, há uma pequena nuance: Clara e Joana têm incapacidades motoras. Talvez por isso, o olhar se demora um pouco mais na estrutura do avião, procurando uma segurança que elas próprias não sentem quando avançam pela pista em cadeiras de rodas. O piloto, compreende isso muito bem e sabe que as miúdas, ao verem-no trepar, à força de braços, pela escada acima, deixarão de lado todos os receios.
Assim foi, no dia dezasseis de Abril, num voo para a Madeira. As duas raparigas, escolhidas à sorte, de entre os jovens internados no Hospital do Alcoitão, deliraram com a viagem. É que, apesar de curta, ela deu-lhes a possibilidade de subir às alturas, de ver casas, estradas, carros, árvores, pessoas, tudo em miniatura como nos jogos do Lego, fê-las atravessar as núvens e perceber que não são feitas de algodão. Entre Lisboa e Funchal elas puderam esquecer-se, por uns minutos, das pernas que não andam e das asas que gostariam de ter. Estavam excitadíssimas, num estado de alegria e entusiasmo impressionantes.
Fez-me lembrar o Eagle’s Day. À semelhança e por cá o nosso António Faria e Mello, um português de Viana do Alentejo, paraplégico, desde que um médico, em setenta e sete, o deixou inválido, durante uma operação à coluna, num hospital sul africano, tinha então dezanove anos e era, na altura, piloto de um setecentos e trinta e sete. Depois de uma batalha borucrática, recuperou o brevet. Não se tem cansado de voar, sendo mesmo o segundo piloto deficiente da história da aviação a conseguir, sozinho, uma volta ao globo terrestre.
Fiquei muito satisfeito. Chegado à Madeira, tentei junto dos variadíssimos turistas americanos, que invadem a ilha, saber algo do Rick. Quase todos lhe conheciam o nome e o tinham como herói de guerra na defesa da bandeira de muitas estrelas. Um desses turistas, um homenzarrão, dos seus cinquenta anos, por entre uma montanha de cervejas, num mesa de um bar do hotel, aconselhou-me a Base das Lages, se quisesse saber alguma coisa mais da sua vida. Foi o que fiz pelo telefone, mais tarde, com pleno êxito, tendo conseguido pouca informação, mas a direcção do herói americano. Escrevi-lhe a contar-lhe e a agradecer-lhe o que vira na viagem, mas as cartas vieram devolvidas porque, entretanto, soube-o meses depois, morrera de cancro.
Regressei à viagem com raiva em relação ao Rick. Deus tinha-se distraído duas vezes…
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