segunda-feira, 8 de setembro de 2008

À MARGEM | O ESCOCÊS ERRANTE


Ouvi falar pela primeira vez do escocês errante, há uns anos, numa concorrida área de fumadores do aeroporto de Zurique. Haveria de voltar a ouvir uma referência ao seu nome em Tóquio, em relação a uma das suas muitas voltas ao mundo. A nicotina tinha criado um maior nível de solidariedade e de promiscuidade e, por via disso, as conversas entre aqueles desconhecidos, juntos pelo vício, brotavam com mais fluidez e espontaneidade que se não houvesse proibição de fumar.
Fora do tempo, o relógio de cada viajante marcava por certo uma hora diferente, e do espaço, as zonas de espera dos aeroportos são quase terra de ninguém, aquela noite transformou-se numa tertúlia em que o idioma dominante era o franco-espano-inglês, com variações em italiano ao cuidado de um bósnio, residente em Roma.
Do escocês errante falou um cidadão belga, Monsieur Robert Grillé, chefe de vendas de uma fábrica de chocolates. Fumava esses puros finos e afilados, que muitos compram por gostarem das latas que os guardam.
O escocês errante chamava-se, ou chama-se ainda, pois mais que provavelmente será vivo ainda, Hiram McGuffin. O seu curriculum atestava tratar-se de um atarefadíssimo comerciante de Glasgow, condenado a vaguear de avião em avião, de aeroporto em aeroporto, sem desembarcar em qualquer parte, como castigo por haver abandonado a sua família para se dedicar aos seus negócios de viageiros, o que tinha provocado o internamento da esposa e a inevitável propensão dos seus três filhos à delinquência e à toxicodependência.
O senhor Grillé não podia demorar-se muito, porque já anunciavam o seu voo no painel, Mas quando o vimos desaparecer silenciosamente, dentro de uma gabardina azulada, velha e fora de moda, pensámos tratar-se do mesmíssimo Mcgufin, que viajava incógnito e havia querido enganar-nos.

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