
Ontem à noite, à hora da telenovela, fui com a minha namorada e um amigo aos livros, ao parque. Estava a pôr-se uma noite de vento e chuva. Chovia em Lisboa. A cada bátega mais forte os grupos abrigavam-se nos beirais dos stands e as meninas das editoras puxavam a cobertura de plástico que protegia da chuva os poetas mais amados e os monos de armazém, edições reluzentes da Bíblia e dicionários a prestações. O meu amigo já tinha dado corda aos sapatos debaixo do guarda chuva, depois de termos comentado a pressa com que a polícia montada se pôs ao fresco.
Sou levado a apostar que a noite do parque, nesse instante de um galope impetuoso da polícia montada, se tornou exclusivamente noite dos filhos da chuva. Nada podia ser mais dramático para o homem dos gelados. E, justamente, diante da chuva transformada em metáfora espelhada no corpo dobrado sobre um poço sem fundo de baunilha e chocolate, senti, como raras vezes o havia sentido, o frio que pode provocar nos ossos a frase de Daniel Draic: “Ser excluído dos livros, mesmo daqueles que não fazem falta é uma enorme tristeza, uma solidão dentro da solidão.” É que, levado entretanto pela intempérie, o homem dos gelados, tornou-se aos meus olhos, sob a chuva do parque, a única criatura do mundo, de cujo olhar estava ausente a necessidade de livros. Ali ficou dobrado sobre a caixa dos gelados, num poço sem fundo. Dali, inesperadamente desapareceu, sabe-se lá se para dentro de romance em saldo. E, então, transformou-se aquele lugar, aos meus olhos, numa inesperada ficção a que chamei “Saudação à chuva no país dos livros.”
Nunca uma ida à feira me apaziguou tanto o coração.
Surpreende-me o gesto daqueles que não têm com os livros uma intimidade antiga. Irrita-me o tipo que exibe, em voz alta, a sua própria biblioteca e mais ainda aquele que pavoneia uma atrevida cultura de badana. Irrita-me essa espécie de condenação subliminar à compra.
Éramos aí uns duzentos, à chuva.
Na noite de ontem senti que fazia parte de uma espécie de comunidade em passeio. A comunidade dos que, passado o incómodo inicial, se deixaram ir com a chuva, chapinhando o prazer dos livros; movidos apenas por um estranho impulso de liberdade.
Se houvesse um coreto no parque, teríamos ficado ali, em rodas, à chuva, à espera que uma pequena banda incendiasse a noite. E, ali, talvez, o homem dos gelados pudesse sentir apaziguado o coração.
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