
Visitei, um dia destes, um velho amigo que já não via há trinta anos, desde os tempos, já remotos, da escola. Por diversas vezes o havia procurado, para relembrar as traquinices cúmplices dos nossos doze, treze anos, mas vi sempre goradas essas tentativas. Provavelmente teria ido para o estrangeiro e lá fizera vida, pensava eu, já que o seu pai, tal como o meu, teria ido procurar sustento noutras paragens, naqueles tempos difíceis.
Foi num casual almoço de negócios, dos muitos que o meu estômago tem que aguentar, tantas vezes a custo, que numa conversa ligeira sobre a meninice veio à baila o nome do meu amigo Carlos Alberto. A pedido do meu cliente dei mais algumas referências e, para espanto meu, concluímos ser seu vizinho.
Fiquei, então, a saber que trabalhava num matadouro de frangos em Tomar. Estranhei, não que menospreze a profissão, mas antes por não parecer ser futuro para aluno brilhante que era. Esclareceu-me então, o meu cliente, que a sorte tinha sido madrasta para o meu amigo. Pai e mãe tinham desaparecido num acidente de viação, enquanto muito novo, contava uns magros quinze anos e teve, por isso, que ir trabalhar para arranjar sustento para os dois irmãos, mais novos, que ficaram ao cuidado da avó. “Uma vida bem difícil para um puto da idade dele”, rematou o meu companheiro de almoço.
Nesse mesmo dia telefonei para o matadouro e confirmei os dados recolhidos ao almoço. Logo ali, decidi visitá-lo de surpresa, no dia seguinte. Fiz tudo para conseguir chegar cinco minutos antes da normal hora de saída: seis da tarde.
À sete ou oito minutos para as seis entrei no escritório do dito matadouro. Não foi difícil convencer a menina Luísa a deixar-me surpreendê-lo no seu próprio posto. Cumpri as formalidades do vestir de bata, pôr um barrete e desinfectar os sapatos e entrei, por ali a dentro, à procura do meu amigo. O pavilhão era enorme e nele circulavam, pendurados, milhares de frangos.
Foi fácil reconhecê-lo nas suas inconfundíveis feições. Mais velho, careca, olhar ainda sereno, mas muito mais profundo. Não me reconheceu à primeira vista mas, poucos segundos depois, atirou confiante:
- O que tem sido feito de ti, João?
Cumprimentou-me com o pulso já que as mãos, deformadas e grandes, pingavam sangue num vai e vem constante, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo... Em cada vez dois frangos por mão subiam da bancada para um carril de ganchos. Por entre aquele amontoado de carne, acrescentou, sem abrandar o ritmo:
- Estou muito contente de te ver, nem sabes quanto. Espera aí que vamos beber um copo a minha casa. Hás - de gostar de conhecer a minha mulher e de ver a minha filha pequenita. Casei tarde, sabes?! É uma princesa!...
Nem respondi. Fiquei ali a olhar para ele. Já todos tinham saído quando fizemos o mesmo. Deixámos batas e gorros, não sem antes agradecer à Luísa, tão reconfortável reencontro. Pelo caminho falámos de muita coisa. Fomos a pé, que a casa dele dista do matadouro uns quatrocentos metros. Mais tarde voltaria para buscar o carro. Arranquei-lhe uma sonora gargalhada quando lhe contei que o meu filho erra um ferrenho benfiquista, ele um sportinguista de trinta costados.
Entrámos em casa. Modesta, muito limpa e de um bom gosto notável. Uma miúda nova, a filha com certeza, pensei eu, saltou-lhe para os braços. O Carlos baixou-se, beijou-a demoradamente nos olhos, lindos de se ver, e não conseguiu levantá-la. Voltou-se para mim, agarrou-me o braço e, com os olhos rasos de água, disse-me:
- João, estes braços já não valem uma merda... Nem podem com a menina... Estas mãos... João, que já levantaram milhões de frangos, à cadência de vinte e nove por minuto.
Foi num casual almoço de negócios, dos muitos que o meu estômago tem que aguentar, tantas vezes a custo, que numa conversa ligeira sobre a meninice veio à baila o nome do meu amigo Carlos Alberto. A pedido do meu cliente dei mais algumas referências e, para espanto meu, concluímos ser seu vizinho.
Fiquei, então, a saber que trabalhava num matadouro de frangos em Tomar. Estranhei, não que menospreze a profissão, mas antes por não parecer ser futuro para aluno brilhante que era. Esclareceu-me então, o meu cliente, que a sorte tinha sido madrasta para o meu amigo. Pai e mãe tinham desaparecido num acidente de viação, enquanto muito novo, contava uns magros quinze anos e teve, por isso, que ir trabalhar para arranjar sustento para os dois irmãos, mais novos, que ficaram ao cuidado da avó. “Uma vida bem difícil para um puto da idade dele”, rematou o meu companheiro de almoço.
Nesse mesmo dia telefonei para o matadouro e confirmei os dados recolhidos ao almoço. Logo ali, decidi visitá-lo de surpresa, no dia seguinte. Fiz tudo para conseguir chegar cinco minutos antes da normal hora de saída: seis da tarde.
À sete ou oito minutos para as seis entrei no escritório do dito matadouro. Não foi difícil convencer a menina Luísa a deixar-me surpreendê-lo no seu próprio posto. Cumpri as formalidades do vestir de bata, pôr um barrete e desinfectar os sapatos e entrei, por ali a dentro, à procura do meu amigo. O pavilhão era enorme e nele circulavam, pendurados, milhares de frangos.
Foi fácil reconhecê-lo nas suas inconfundíveis feições. Mais velho, careca, olhar ainda sereno, mas muito mais profundo. Não me reconheceu à primeira vista mas, poucos segundos depois, atirou confiante:
- O que tem sido feito de ti, João?
Cumprimentou-me com o pulso já que as mãos, deformadas e grandes, pingavam sangue num vai e vem constante, para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e para baixo... Em cada vez dois frangos por mão subiam da bancada para um carril de ganchos. Por entre aquele amontoado de carne, acrescentou, sem abrandar o ritmo:
- Estou muito contente de te ver, nem sabes quanto. Espera aí que vamos beber um copo a minha casa. Hás - de gostar de conhecer a minha mulher e de ver a minha filha pequenita. Casei tarde, sabes?! É uma princesa!...
Nem respondi. Fiquei ali a olhar para ele. Já todos tinham saído quando fizemos o mesmo. Deixámos batas e gorros, não sem antes agradecer à Luísa, tão reconfortável reencontro. Pelo caminho falámos de muita coisa. Fomos a pé, que a casa dele dista do matadouro uns quatrocentos metros. Mais tarde voltaria para buscar o carro. Arranquei-lhe uma sonora gargalhada quando lhe contei que o meu filho erra um ferrenho benfiquista, ele um sportinguista de trinta costados.
Entrámos em casa. Modesta, muito limpa e de um bom gosto notável. Uma miúda nova, a filha com certeza, pensei eu, saltou-lhe para os braços. O Carlos baixou-se, beijou-a demoradamente nos olhos, lindos de se ver, e não conseguiu levantá-la. Voltou-se para mim, agarrou-me o braço e, com os olhos rasos de água, disse-me:
- João, estes braços já não valem uma merda... Nem podem com a menina... Estas mãos... João, que já levantaram milhões de frangos, à cadência de vinte e nove por minuto.
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