terça-feira, 9 de setembro de 2008

À MARGEM | ESCADAS DE ALFAMA

Gostava muito de falar com ele. Encontrava-o várias vezes na Brasileira, quando saía da escola. Era um homem antiquíssimo, com uma suave sabedoria, nada impunha, nada exigia. Recusara, havia muito, o carácter peremptório das afirmações; apreciava coisas singelas como, por exemplo, ver o fluir enigmático dos dias, ou olhar o rio.
Era um homem enorme, pesado, tranquilo. Quando novo, jogava boxe, chegara a conquistar um campeonato de Lisboa. Nomeava pugilistas de outro tempo, vibrava com isso mas, para ele, havia dois absolutamente régios: Ray Sugar Robinson e Joe Louis. Aí, era o aleluia na conversa. E a conversa nunca mais acabava. Um rememorar de factos relacionados com combates de boxe, um tropel de situações extraordinárias, que me fez passar a respeitar aquele desporto, limpando de mim a imagem de jogo violento de alguns socos na cara.
Se, como se diz, a partir de uma certa idade, os homens começam a ter equivalências zoológicas, aquele homem estava na etapa do elefante. Disse-lhe isto, certa tarde, e ele sorriu, na sua inigualável aparência feliz. A sua serenidade era praticamente inviolável, e a segurança das coisas em que acreditava impossível de ser atingida. Sorria. Sorria com frequência.
Conversávamos muito sobre o mundo naquelas tardes amenas de cheiro a Tejo, do universo mesquinho de homens mesquinhos. Nada de dizer mal: criticar com zombaria e mordacidade, isso, sim. A meio da conversa ele disse-me:
- Levei muita porrada, porrada a dar com um pau. Mas não conseguiram fazer-me nada que não se cure.
Amarinhámos, por ali fora, os dois até à escadaria que sai de Alfama e conduz à pequena meseta que leva o nome de Portas do Sol, e olhámo-nos com amizade e respeito. Um dia, pediu-me:
- Você é capaz de me ajudar a subir esta escada?
De súbito, entendi que também o grande campeão, fortíssimo, envelhecera de repente. Nunca imaginara aquele corpanzil a pedir ajuda. Aprendi que a velhice é isso mesmo: pés de lã e, logo - logo, desasados e desamparados, pumba!, estamos velhos. Disse-lhe:
- O senhor nunca precisou de ajuda de ninguém, mas fico muito feliz por acompanhá-lo na subida da escada.
Parou, observou-me detidamente, e respondeu:
- Você é mesmo meu amigo.
- É bom ter um amigo - disse eu.
- É. É o melhor que há. Oiça!, nunca devemos maltratar um amigo - disse ele.
- Tenho poucos amigos, sabe? As amizades não são fáceis de construir e mais difíceis são, ainda, de manter - disse eu.
E ele:
- Eu creio que você está enganado... no ter poucos amigos, é claro! Mas, enfim, concordo que a amizade não se vende, não se troca, não se compra.
Reparei que o meu amigo, antiquíssimo, estava tão feliz, tão, que parecia, mais do que regozijado, jubiloso. Os seus olhos fatigados de velho fatigado rebrilharam moços e, direi, chamejantes.
- O pior de tudo - disse ele - é a história das mulheres. A gente, quando gosta delas, nunca deixa de gostar. Mas, com a velhice, é só olhar, meu amigo, é só olhar... Olhar é bom, claro!, também é bom. Mas nunca é tão bom como... como... como o resto..., como comer, é claro! Aquela história de que os olhos também comem tem muito que se lhe diga, tem muito...
Riu com satisfação imensa. Riu muito, olhos semicerrados, braços abertos, gesticulação branda e larga, porém veemente, porque desejava sublinhar muito bem e com malícia o que ia dizendo.
Por esses dias, disse-me um amigo comum:
- Quando este homem morrer vamos sentir muito a sua falta.
Assim era. Assim foi. Um dia, dois, três a seguir, ele não apareceu. Havia morrido como um pássaro de coração estoirado. Soubemos tarde de mais. Mas soubemos, isso soubemos, que, onde quer que ele estivesse, e certamente estava em algum lado cheio de nuvens claras e de músicas suaves, onde quer que fosse esse sítio, esse território efusivo e tépido, ele estaria a observar-nos, com a ternura meiga e bondosa de um homem enorme e poderoso que gostava e sabia amar os outros.

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