sexta-feira, 12 de setembro de 2008

À MARGEM | CIGANA


Alta, madura e enérgica, a enfermeira Rita saía do segundo esquerdo para o trabalho, como todos os dias. Do pátio, onde a roupa estendida descuidadamante mostrava a promiscuidade e pobreza dos vizinhos, saía Cristina. Ainda menina, peitos levantados duma florescente puberdade, enxugava lágrimas e mais lágrimas.
Rita, observou, atentamente, o choro da miúda. A sua experiência maternal dizia-lhe que aquele pranto escondia algo de grave. Inquiridora, judicial, com amigável severidade, deteve a garota, que cada vez chorava mais:
- O que é que tens? Para que são tantas lágrimas?
Com voz soluçada, depois de largo suspiro, Cristina confessa o delicado problema, como quem se lança à água de um barco naufragado:
- Estou muito mal e tenho que ir para a escola, senhora Rita. Estou a deitar muito sangue e o penso que pus está sempre a cair...
Será que a miúda já era mulher? Será que nem a mãe nem a professora a tinham prevenido? Como é uma experiência que sempre assusta quando não se espera, bem poderia ser isso, imaginara a enfermeira:
- A tua mãe não sabe? Não lhe disseste que te sentias mal?
- Ai, senhora Rita, matava-me se soubesse. Por Deus, não lhe vá dizer...
Um palpite medonho invadiu o peito e golpeou o rosto da surpreendida senhora. A voz endureceu, com uma irritada curiosidade na pergunta.
- Diz lá o que é que tens, rapariga?
Chorava com toda a alma. Depois, logo que pode conter alguns dos soluços:
- É que... o Luís... é que o Luís fez-me uma grande patifaria...
Rita, apesar da estranheza, ficou imóvel, numa dúvida intranquila. O seu filho, também Luís, era um rapagão de quinze anos, a mudar de voz, que às vezes chegava tarde à escola. Teria sido ele? Se fosse já o teria sabido, pensava ela para se consolar.
- Entra aí para a barraca da Cilita que eu já lá vou ter. E vê se deixas de chorar, que vou curar-te.
E se fosse? Seria terrível. O Sebastião, pai da Cristina, um homem habituado a desordens, não se incomodava nada de matar o Luís. Havia que averiguar isso a fundo.
Voltou a casa, o filho deveria estar por lá:
- Luís, anda daí.
Lá veio, como se o tivessem descoberto. Cabeça baixa, olhos bem postos no chão, envergonhado. A enfermeira olhava atentamente o filho com ar apreensivo:
- Luís, o que é que fizeste à Cristina?
A voz era inapelável. Não havia salvação possível. Luís estava compungido. Percebeu que não podia escapar. E, pelo aspecto da mãe, nada de bom seria de esperar.
- Já te digo!... Que fizeste à Cristina? Já me está...
Não era fácil explicar mas, por não haver saída, confessou o golpe:
- É que... pois é... há muito tempo que ela me dizia que eu nem homem era, nem nada... e depois... depois agarrava-me... e eu dizia-lhe que estivesse quieta.... ou que, então, lhe mostrava se era homem ou não.... acabei por....
A enfermeira não pediu mais quaisquer explicações ao filho que, assustado, sentindo as lágrimas a querer sair dos olhos, continuou com voz trémula:
- Foi ela... ela é que me procurou... muitas vezes... gozou-me, agarrou-me... e que não era homem... e que era maricas... Fiz asneira, pronto!
Não se conteve a pobre enfermeira e chorou desalmadamente.
- Vais ver, meu malandro, o que é ser homem. Acabou-se a escola e a canalhice. Se te sentes capaz de tantas coisas, vais saber o que é realmente usar calças. Hoje mesmo vais trabalhar. Hoje mesmo, nem mais um dia, para perderes a mania.
A enfermeira, enfurecida, pegou-lhe no braço, com empurrões cada vez mais violentos:
- Desaparece, vai-te daqui para fora, antes que te matem... meu sem vergonha!...
O Luís saiu mudo. Muito grave deveria ser o que tinha feito. Atravessou o pátio até à rua, com medo de encontrar Sebastião, o pai da Cristina, que sabia ser homem muito violento. Sentia-se outro, estranho, no próprio bairro onde tinha nascido. As mesmas ruas pareciam agora diferentes. A linha do comboio, os postes, as gentes, tudo parecia ver pela primeira vez. Mas, enquanto, na barraca de Cilita, Cristina chorava compulsivamente, um vaidoso e estranho orgulho lhe subiu as veias, num desvairado pensamento: “e se fumasse um cigarro?...”

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