Era, então, um garoto sonhador e sensível que trepava penosamente por uns mal encaminhados onze anos. Em frente à afogada meninice, crescia o mundo dos grandes. Esse mundo vivo, confuso, a que queria chegar, estava do outro lado da esquina que limitava a sua liberdade e da qual, por uma estrita e rigorosa proibição, estava vedado passar. Penas severíssimas caíam sobre seus tímidos ombros se arriscasse cruzar aquela linha de fogo, depois da qual poderia perder-se. Para lá dela, dizia-lhe a intuição, estava um mundo obscuro e secretamente proibido.Um par de anos antes tinha ido viver para casa de D. Emília e Sr. Joaquim, uma família sem filhos que tinha de tratar por tios. Eram excessivamente secos, austeros, apegados a velhas normas onde não cabia a ternura. A princípio ainda teve o calor de que carecem os filhos longe dos pais, já que o inesperado de terem conseguido um rapaz suavizou os ásperos costumes.
Teve que aprender a respeitar regras e mais regras: não entrar, sem autorização especial, na sala sempre escura e misteriosa, ou na estéril biblioteca ou na fúnebre casa de jantar, só usada numa rara visita de algum hóspede solene; não pisar os encerados, cujo brilho era mais importante que qualquer dos seus sorrisos; não entrar pela porta principal; não escorregar pelo corrimão da escada; não tocar nos cortinados e, o pior, não brincar com os seus amigos, cúmplices, que o convidavam para sair, sugerindo mundos onde se podia saltar, jogar, brincar e conhecer coisas proibidas, fortemente desejadas.
Uma pesada topografia impedia-o de fazer tudo o que dá gosto a um miúdo solitário de onze anos. O olhar, sempre vigilante e impiedoso, de sua tia, preocupava-se, sobretudo, em manter incólume o seu domínio; em manter a imobilidade perpétua dos móveis, tal como os tinha acomodado e em ver bem limpo o seu bibe, sempre azul, a lembrar farda.
Um dia a família cresceu. Do norte, empurrados pela desertificação interior, chegaram a casa um senhor com o filho de idade semelhante à sua. Naquele lapso de tempo, em que a novidade não degenerou em hábito, a felicidade dos parentes que se juntam, depois de larga separação, até aí desligados, quase antípodas, criou horas calmas e cordiais, tendo irmanado novos desejos e preocupações. A amizade com seu novo colega, as coisas fabulosas que contou sobre terras que não conhecia, fizeram-lhe crer que a inusitada compreensão dos tios, a afabilidade e as inesperadas facilidades para violar o código que, até aí, regia a casa, podiam perdurar pelos anos fora.
Mas as coisas foram de outro modo. E logo veio o golpe mais duro. Rafael, que tinha de tratar por primo, que pensara companheiro com quem dividiria o pão e a vida, um garoto esperto, roubou-lhe os poucos privilégios que já tinha conseguido, depois de ter posto em jogo uma paciente diplomacia com D. Emília. Todos os mimos, toda a atenção, todos os passaportes para as zonas proibidas e todas as imunidades para fazer travessuras, dispensadas ao Rafael e a si não, estimularam-no um lastimável complexo de rejeitado. A sensibilidade ferida, a ternura sem resposta, fizeram-no sentir marginalizado, tal era torturante o permanente estado de injustiça a que estava sujeito.
Foi-lhe crescendo, então, a intenção de fugir. Converteu-se numa necessidade imperiosa, quando fez, cheio de inocência, algo que se transformou para os de casa como acto de intolerável hipocrisia.
Tinha então, apesar de tenra idade, alguma pelugem que lhe cobria o rosto. Pegou no rodo de barbear, sempre à vista na casa de banho, com que o Sr Joaquim tirava as barbas, e urdiu imitá-lo. Se bem sucedido na sua decisão, pensava, havia a esperança de criar motivo em casa para, pelo menos uma vez, merecer rasgados elogios de façanha tão singular. Ensaboou a cara da mesma maneira que havia visto e limpou, em poucos minutos, todos os pêlos.
Satisfeito e de ar triunfal, sentou-se, no seu lugar de sempre, na mesa, no momento mais importante que podia haver em casa: a refeição.
Não disse nada. Frente a Rafael, sorriu com um ar triunfal, vingativo, voluptuoso, que intrigou seu primo. Este, de pronto, com uma olhadela sagaz, descobriu a causa e, seguro de o comprometer, anunciou acusadoramente:
- Olha tia, o primo fez a barba!
Todos os olhos convergiram para a sua cara de pobre garoto. Jorrava de satisfação, que lhe saía por olhos e gestos. E, quando esperava felicitações entusiastas, do tipo “que grande homem!”, a voz cortante de sua tia, enquanto o sorriso mudava para os lábios do Rafael de forma mais trocista e gloriosa, impôs um irredutível:
- Sai já da mesa. Ficas sem comer.
E, num comentário escandalizado, justificou o castigo:
- Meu Deus, como mudaram as coisas! Querer ser homem com meia dúzia de anos! Meu Deus, olha ao que isto chegou! Já não há respeito, decência, nada!
- Há que dar-lhe um ensinamento! - disse o Sr Manuel, amigo do Sr Joaquim.
Humilhado, retirou-se arrastando a amarga derrota, com sabor ácido de uma rebeldia impotente. Cada batida do coração era um protesto para quem o não queria compreender e uma certeza de que ninguém o queria. Para os seus botões, desabafou:
- Tenho que me ir embora de uma vez por todas.
Sonhava ir para um circo e tornar-se domador de leões para que um dia, muitos anos depois, os seus tios e primo, ao assistirem ao circo, ao descobrirem que o valente domador das feras era precisamente ele e perante os estrondosos aplausos do público, se arrependessem de não o terem querido.
Estava nestes pensamentos quando Rafael o incomodou de novo, acusando-o de lhe ter batido. D. Emília sovou-o mais uma vez. Era a hora de ir, de abandonar para sempre aquele mundo hostil, em que qualquer coisa, por mais banal que fosse, era mais estimada que a sua meninice.
Saiu porta fora e num segundo chegou à esquina. Com o desespero de um náufrago e a valentia dum herói, coroada pela violação da fronteira, dos homens grandes, com onze anos apenas, foi à aventura de fazer-se santo e de se tornar domador de leões.
A rua, enquanto andava, tornava-se mais larga e as casas pareciam crescer. O seu desejo de explorar o mundo desconhecido, onde viviam os homens e outros meninos, cujas vidas ansiava descobrir, era então um desejo apagado na dúvida de orientar seus passos.
Tinha apenas caminhado uns tantos metros quando um espectáculo deslumbrou a sua atenção: vários homens enchiam uma bola de papel, bem colorida e grande. Com palavras de incentivo, ajudando-se uns aos outros, preparavam a viagem do vistoso globo multicolor. A cena fascinou-o. Com coisas tão extraordinárias, como era bom andar livre pela rua...
Esqueceu tudo a contemplar o balão, subindo ao céu com uma fogueira no ventre, tornando mais brilhante o vermelho, o branco, o azul e todas as outras cores. Pôs-se a sonhar que se fosse naquele balão, mais perto de Deus, poderia pedir ao Criador que lhe desse uma boa infância. Sentir-se-ia dono da cidade.
Embebido a contemplá-lo, de olhos fitos no seu corpo ventrudo, regressou à terra arrastado por um valente puxão de orelhas. Ao virar a cara, deparou-se com o olhar acusador do seu tio que, sem uma única palavra, o levou de volta.
Pronto! Seu coração parecia outro balão que queria fugir do peito. Um medo enorme o invadiu ao supor que mais grave que se ter barbeado era ter saído de casa sem autorização. O silêncio do Sr. Joaquim atormentava-o ainda mais. Atrás dele, que quase lhe arrancava a orelha, deparou com um inusitado movimento de pessoas em frente de casa. Reconheceu vizinhos, pais de seus amigos e até as criadas da rua, todos com rostos preocupados. Disseram quase em coro, quando o viram:
- Andámos à tua procura! Onde te meteste?
Ficou pasmado! Seria possível ter causado tanta ânsia? Uma suave e doce calma e a embriagadora suspeita de poder, finalmente, ser desejado agitou o seu desconcertado coração: será que gostavam de si? Imaginou a sua tia de braços abertos, disposta a apertá-lo contra o peito, como nunca tinha feito antes, e a dar-lhe os beijos que o fariam o mais feliz dos meninos.
E logo, seu tio, com um seco safanão:
- Anda rapaz, vai acalmar a tua tia. A desgraçada está quase doida com medo de te terem roubado.
Trémulo, contente, culpado, satisfeito, entrou em casa. Rafael antecipou-se e gritou:
- Tia está aqui o Rui.
Sentada na cadeira, estava sua minha tia afogada em lágrimas. Como um criminoso, por saber ser a causa dessa pena, acercou-se dela com a garganta presa, coração galopante, sem mais ânimo que deixar-se cair nos seus braços.
Ela levantou a cabeça e, ao ver-me, gritou:
Seu malandro! Vou dar-te tamanho castigo que vais perder a vontade de passear. Vais ver...
Nessa noite fugi de casa. Nunca mais voltei.
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