Naquele dia quente de Agosto aeroporto do Sal era um turbilhão de gente, malas, sacos, meninas com laçarotes, meninos de grandes dentes brancos e sorrisos escancarados. Gente que ficava, gente que continuava para o Mindelo e eu ali, no meio da barafunda, já a perceber que me ia dar bem com o cheiro gostoso que vinha não sei de onde, com a denguice morna de quem nos levava até à carrinha do hotel, sorrindo, sorrindo sempre... Estava finalmente em Cabo Verde.
Os dias que passei no Sal vivi-os na praia de areia fina e mar a perder de vista, sempre rodeada dos meninos da areia. Meninos pobres. Meninos sorridentes. Meninos que chegavam de mansinho e se sentavam pertinho de mim, com as mãos cheias de conchas, que trocavam por lápis ou papel ou, suprema alegria, por livros. Meninos em tronco nu, que corriam de vez em quando para um mergulho no mar que é de todos, como o sol, a areia e as conchas.
Uma das manhãs, de sol abrasador, vivo e difícil de suportar, um dos meninos veio oferecer-me um barquinho de lata em troca de um bloco de papel e da lapiseira dos meus riscos, que lhe tinha dado na véspera. Estava um dia de brasa, mas o menino, porque vinha dizer obrigado, vestia blusinha branca e calçãozinho surrado. Com ele trazia a irmã, de vestido aos folhos e um grande laçarote colorido no alto do cabelo crespo. Calçados ambos, ela com peuguinhas brancas e folhinho de renda a espreitar do sapato roto. Foi um encontro bonito, de olhares e sorrisos mansos, sem pressas nem grandes gestos. Soube logo ali que o sonho maior do menino era jogar a bola no Benfica e ganhar dinheiro para dar aos outros para matar a fome.
Sonho esse que era o de todos os meninos que corriam pela praia imensa a oferecer conchas aos turistas ou a jogar à bola com aquela habilidade e destreza que têm todos os pequenos eusébios de todas as áfricas.
Conchas e bolas descansavam na areia para correr até ao pontão onde o peixe estava a ser descarregado. Alguns meninos já seguravam as alcofas com grandes peixes prateados, todos iguais. Em casa, nas casas pobres e escuras, esperavam-nos as mães, mães de famílias numerosas, amontoadas em pequenas divisões de onde espreita o perfil de um violão ou de um cavaquinho e por onde escapa o cheirinho bom da cachupa.
E todos os dias, com o nascer do sol, renascem os sonhos destes meninos pobres, frente ao mar que, sabem eles, será, seria a porta aberta para uma vida melhor. “Leva-me contigo, amigo. Mas volta a trazer-me!”
Fartos de sol e de areia, que é o que mais a terra dá, como cantava o poeta, os meninos das ilhas da claridade, irrequietos, sonhadores, tão sôfregos de partir e voltar e de jogar no Benfica, continuarão a inventar barquinhos de lata que trocarão por folhas de papel e lápis e, quem sabe, se essas folhas e esse lápis não serão o princípio de cantos e rimas de futuros poetas.
Os dias que passei no Sal vivi-os na praia de areia fina e mar a perder de vista, sempre rodeada dos meninos da areia. Meninos pobres. Meninos sorridentes. Meninos que chegavam de mansinho e se sentavam pertinho de mim, com as mãos cheias de conchas, que trocavam por lápis ou papel ou, suprema alegria, por livros. Meninos em tronco nu, que corriam de vez em quando para um mergulho no mar que é de todos, como o sol, a areia e as conchas.
Uma das manhãs, de sol abrasador, vivo e difícil de suportar, um dos meninos veio oferecer-me um barquinho de lata em troca de um bloco de papel e da lapiseira dos meus riscos, que lhe tinha dado na véspera. Estava um dia de brasa, mas o menino, porque vinha dizer obrigado, vestia blusinha branca e calçãozinho surrado. Com ele trazia a irmã, de vestido aos folhos e um grande laçarote colorido no alto do cabelo crespo. Calçados ambos, ela com peuguinhas brancas e folhinho de renda a espreitar do sapato roto. Foi um encontro bonito, de olhares e sorrisos mansos, sem pressas nem grandes gestos. Soube logo ali que o sonho maior do menino era jogar a bola no Benfica e ganhar dinheiro para dar aos outros para matar a fome.
Sonho esse que era o de todos os meninos que corriam pela praia imensa a oferecer conchas aos turistas ou a jogar à bola com aquela habilidade e destreza que têm todos os pequenos eusébios de todas as áfricas.
Conchas e bolas descansavam na areia para correr até ao pontão onde o peixe estava a ser descarregado. Alguns meninos já seguravam as alcofas com grandes peixes prateados, todos iguais. Em casa, nas casas pobres e escuras, esperavam-nos as mães, mães de famílias numerosas, amontoadas em pequenas divisões de onde espreita o perfil de um violão ou de um cavaquinho e por onde escapa o cheirinho bom da cachupa.
E todos os dias, com o nascer do sol, renascem os sonhos destes meninos pobres, frente ao mar que, sabem eles, será, seria a porta aberta para uma vida melhor. “Leva-me contigo, amigo. Mas volta a trazer-me!”
Fartos de sol e de areia, que é o que mais a terra dá, como cantava o poeta, os meninos das ilhas da claridade, irrequietos, sonhadores, tão sôfregos de partir e voltar e de jogar no Benfica, continuarão a inventar barquinhos de lata que trocarão por folhas de papel e lápis e, quem sabe, se essas folhas e esse lápis não serão o princípio de cantos e rimas de futuros poetas.
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