segunda-feira, 8 de setembro de 2008

À MARGEM | O RUSSO


Madrid, acabara de jantar. Tomei o caminho do hotel, naquele Sábado frio de fins de Setembro. Não estava tempo para passeio digestivo. Além da temperatura desagradável, uma chuva miudinha, certeira e contínua, que já me estragara o repasto sob as arcadas da Plaza Mayor da capital espanhola, impelia-me para o conforto de um ambiente aquecido. Além disso, sentia no corpo o cansaço de quem já levava trinta dias de cigano, atravessando meia Europa, de leste para ocidente e de regresso a casa.
Com os meus botões, pensava em coisas banais, cogitações interrompidas pelos acordes de uma viola, o que me obrigou, primeiro, a parar, para escutar, e, depois, a dar outra direcção à marcha. Assim o exigi a mim próprio, que aquilo não podia ser coisa que pedisse ao transeunte puxar da carteira ante um qualquer cidadão desenraizado da sociedade, desejoso de ouvir o som metálico da moeda a bater no fundo da sua caixa de esmolas.
As cordas daquela viola distendiam-se à força com a sensibilidade de dedos treinados em escola. Confirmei-o quando me abeirei do executante. Pensei ser seguramente um músico do leste no desemprego, ante um quadro inesquecível e digno de um filme de Fellini: um músico sentado num banco de madeira, o pé esquerdo sobre um pequeno apoio, como mandam as normas, tocando para uma plateia única, da qual sobressaía um pequeno grupo de marginais, maltrapilhos buscando abrigo nas arcadas, esquecendo a puta da vida no calor da música, em silêncio, como nós, e uns quantos transeuntes mais que, entretanto, havia elevado o número de espectadores para próximo da vintena.
Quando a guitarra se calou todos aplaudiram, mas só eu terei feito o gesto adequado ao estender uma nota de duas mil pesetas, o preço afixado num papel, escrito à mão, por um CD que incluía o trecho que escutara, o terceiro de uma lista de treze obras de sua autoria. Fiquei, então, a saber que era russo e que se chama Alexander Orlov. Posso garantir que o CD tem qualidade e que vale muito mais que o preço que paguei.
Pelo contrário, quem estendeu o braço para depositar uma moeda onde quer que fosse arrependeu-se. “Isso não, por favor. Sou músico, vendo o meu trabalho”, disse o russo, com um sorriso pálido nos lábios, mas muito ferido na sua dignidade.
A uma esquina da Plaza Mayor, uma viola chorava, em finais de Setembro de umas férias cansadas, qual balalaica gemendo a nostalgia russa, nas mãos daquele corpo enorme, de rosto orgulhoso e barbudo.

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