
Caía calma a tarde no estuário do Tejo. Era Setembro. O Sol já se escondera para além da Caparica, deixando a silhueta do majestoso Cristo Rei a dominar o rio, tranquilo daquele Outono, cheio de barcos, que o sulcavam para lá e para cá num vai e vem constante.Nas ruas, indiferentes, as pessoas acotovelavam-se na ânsia de chegar primeiro. Os cacilheiros lá iam devorando a multidão de homens sós, apressados, indiferentes, anónimos, quase loucos.Sozinho, vagueava por ali a alimentar a grande paixão pela Baixa Pombalina. Erguia-se, a meus olhos, mais bela que nunca, por entre sombras e réstias de sol espetadas no Chiado. Fiquei por ali largos minutos admirando rostos na multidão, tal carreiro de formigas. Tão diferentes, deixavam, em cada passo, atropelado e lesto, adivinhar uma imensidão de vidas, de paixões, de sonhos.Subi, a passo compassado e lento, da Praça do Comércio até ao Rossio. Os edifícios, divinos, deixavam uma sensação indescritível de gosto e de talento. Ali estivera a mão de homens sérios e competentes, como poucos.Parei na pastelaria mais famosa do Rossio, visita obrigatória de gente endinheirada. Pedi um café. À minha frente, mesmo ali, a cidade dos homens continuava vertiginosamente louca, distante. Puxei pelo cachimbo, o mais preferido e companheiro de muitas jornadas, comprado em Cuba, feito na Holanda, como tantas das coisas que se vendem no país de Fidel, e preparei-o para fumar. Uma cerimónia normalmente lenta, que faço pensativamente a gosto .Uma miúda da rua, com uns magros dez anos, com outra às costas com pouco mais de um ano, atada por um pano muito sujo, que se adivinhava irmã, andava por ali. Mal a vi quando me pediu esmola, como tantos outros que povoam a cidade de gente anónima. O meu não, feito de forma maquinal com a cabeça, mal teve tempo de ser apreendido pela pobre garota, tal a pressa com que o diligente funcionário teve em afastá-las, para que não perturbassem o sossego de tão estimável clientela.Peguei no isqueiro, um Simon Tissot Dupond de ouro, que um velho amigo me havia oferecido quando entrei na ternura dos meus quarenta anos. Fiquei vidrado ao olhar para ele. A escultórica e rara beleza daquela autêntica peça de arte confundia-se, agora, com o rosto sujo das crianças que me tinham abordado segundos antes. Facas autênticas apunhalaram a minha mente confundida.Um isqueiro de ouro!... Qualquer coisa que um banal fósforo substituiria, com igual ou superior eficácia.Rebusquei a memória visual à procura daquelas garotas da rua, tão vulgares como tantas outras, mas tão importantes para mim no momento. Incomodado, alheio a tudo o que me envolvia, não me saíam da cabeça os olhos vivos da mais pequena, dois bugalhos de luz, que quase lhe saíam das órbitas, e os olhos mais lassos da mais velhota, lagoas de ternura, na esperança de receber alguns trocados. Aquele olhar amassado em tristezas eternas, aqueles corpos maltratados e sujos e aqueles pés descalços e gastos acusavam-me, torturavam-me e obrigavam-me a pensar em tudo o que poderia resolver o valor daquele isqueiro, banal na sua vil utilidade. Assaltou-me, então, uma pergunta mordaz que me obrigou a arrumar cachimbo e isqueiro: E se fossem os meus filhos em vez delas?
Tive vergonha.
Merda!
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