
Na esplanada onde estava havia um homem de estatura meã, robusto e congestionado que gritava, cheio de ira, para um outro, altíssimo, magríssimo, espantadíssimo. Tolices de fanáticos do futebol. Nesse tempo, não hoje, falar de coisas de futebol era falar de coisas dignas. Gritar de fanatismos, sobre fanatismos, com fanatismos, isso era e é coisa menor, indigna. Sobretudo se o fanatismo provier de um grande fenómeno democrático, repito democrático, que era o futebol.
A esplanada onde estava dobra-se para uma paisagem surpreendente: dali vê-se parte do estuário do Tejo na qual o rio forma uma caprichosa laçada. De súbito, ou não assim tão súbito, sobe-me à ideia a figura típica do meu antigo professor de matemática. Professor do colégio onde o velho Curado legou a parte mais estrelar do seu belo talento. Dizia ter demonstrado o teorema de Pitágoras. Alcoólico, de não reconhecido, falava dele como se o teorema fosse, e afinal é, uma pessoa, daquelas pessoas que têm alma.
Hoje ninguém sabe quem foi o capitão Curado. E esse ninguém envolve uma pazada de antigos alunos seus e simpatizantes, que aprenderam dele a matemática que os guindou a outros patamares. Mas o capitão marcou-me uma época e definiu-me um estilo. Além disso era um homem de honra. Tinha muito poucos amigos e para arredondar o tempo, fazia uns trabalhitos em madeira numa carpintaria por si montada na própria casa, num anexo, mesmo junto à despensa, onde se amontoavam papéis até ao tecto, cheios de orgulhosas contas e de riscos, de parceria com o inseparável garrafão de vinho. Sobre ele ficava sempre um copo voltado sobre o gargalo, onde, às escondidas, como o fazia no tempo da esposa, bebia copos atrás de copos, envergonhados. Vivia só. Por lá vagueava o Tareco, o inseparável gato preto, com quem falava largamente de matemática e de outras paixões. Então, o velho Tareco, roçava-se incansavelmente pelas pernas, como se agradecesse as matérias ensinadas pelo professor. Isto diariamente, durante anos a fio.
Eu gostava de falar com aquele homem alto e de andar pausado. Sentia orgulho em apertar-lhe a mão, em seguir na rua, a seu lado, ouvindo-lhe o discretear. Por vezes, ao começo da noite, à saída do colégio, eu via-o, a caminho de casa para avinhar a viuvez, a cumprimentar, cortês, quem passava. Não conseguia reprimir-me e gritava-lhe:
- Boa noite, capitão!
Ele parava, voltava-se lentamente para mim, saudava o puto discípulo e lá ia, desvanecido num sorriso bondoso, um homem efusivo e dominado pela matemática, nunca vergado na sua integridade exemplar. Eu ficava a olhá-lo até ele desaparecer no alto da rua, lá em cima, à esquerda.
Mas estava na esplanada, a olhar no Tejo, ouvia a berraria frenética, e lá se me devolve a velha história do nosso capitão:
“Estava eu a cervejar, na Place Rogier, p'raí uma superfície cinco vezes superior ao Trindade - onde eu estava e daí o recordar - e eis senão quando entram um burro e um burriqueiro por ali a dentro. Calmamente, o empregado de balcão estende ao burriqueiro, montado no seu burro, uma imponente caneca de cerveja e ao burro, que suportava o peso do seu burriqueiro, uma não menos imponente tigela... de cerveja, bem entendido. Beberam, arrotaram os dois, o burro fez um ronco medonho, e regressaram pelo mesmo caminho.”
A história do capitão Curado era extremamente dura, inacreditável, pessoal e intransmissível. Fiquei, um dia, com o peito cheio de vaidade pela distinção que me fez quando me disse, que esta história era mesmo verdade e não uma rotunda treta, como todos pensavam.
Dias depois vi-o, agradeci-lhe, ele sorriu, deu-me uma palmada no ombro, e disse-me:
- É bom ver-te crescer.
Gostava tanto de o rever, sentado comigo, naquela ou noutra esplanada, onde já não vou há anos. E falaríamos, certamente falaríamos acerca de coisas simples e belas como o episódio do burro; sobre o rio; sobre Pitágoras. Falaríamos e éramos, agora, os dois da mesma idade, porque o tempo nunca o tinha envelhecido. Os dois da mesma idade. Mas, sobretudo, dois amigos sentados na mesma esplanada a ver o rio.
A esplanada onde estava dobra-se para uma paisagem surpreendente: dali vê-se parte do estuário do Tejo na qual o rio forma uma caprichosa laçada. De súbito, ou não assim tão súbito, sobe-me à ideia a figura típica do meu antigo professor de matemática. Professor do colégio onde o velho Curado legou a parte mais estrelar do seu belo talento. Dizia ter demonstrado o teorema de Pitágoras. Alcoólico, de não reconhecido, falava dele como se o teorema fosse, e afinal é, uma pessoa, daquelas pessoas que têm alma.
Hoje ninguém sabe quem foi o capitão Curado. E esse ninguém envolve uma pazada de antigos alunos seus e simpatizantes, que aprenderam dele a matemática que os guindou a outros patamares. Mas o capitão marcou-me uma época e definiu-me um estilo. Além disso era um homem de honra. Tinha muito poucos amigos e para arredondar o tempo, fazia uns trabalhitos em madeira numa carpintaria por si montada na própria casa, num anexo, mesmo junto à despensa, onde se amontoavam papéis até ao tecto, cheios de orgulhosas contas e de riscos, de parceria com o inseparável garrafão de vinho. Sobre ele ficava sempre um copo voltado sobre o gargalo, onde, às escondidas, como o fazia no tempo da esposa, bebia copos atrás de copos, envergonhados. Vivia só. Por lá vagueava o Tareco, o inseparável gato preto, com quem falava largamente de matemática e de outras paixões. Então, o velho Tareco, roçava-se incansavelmente pelas pernas, como se agradecesse as matérias ensinadas pelo professor. Isto diariamente, durante anos a fio.
Eu gostava de falar com aquele homem alto e de andar pausado. Sentia orgulho em apertar-lhe a mão, em seguir na rua, a seu lado, ouvindo-lhe o discretear. Por vezes, ao começo da noite, à saída do colégio, eu via-o, a caminho de casa para avinhar a viuvez, a cumprimentar, cortês, quem passava. Não conseguia reprimir-me e gritava-lhe:
- Boa noite, capitão!
Ele parava, voltava-se lentamente para mim, saudava o puto discípulo e lá ia, desvanecido num sorriso bondoso, um homem efusivo e dominado pela matemática, nunca vergado na sua integridade exemplar. Eu ficava a olhá-lo até ele desaparecer no alto da rua, lá em cima, à esquerda.
Mas estava na esplanada, a olhar no Tejo, ouvia a berraria frenética, e lá se me devolve a velha história do nosso capitão:
“Estava eu a cervejar, na Place Rogier, p'raí uma superfície cinco vezes superior ao Trindade - onde eu estava e daí o recordar - e eis senão quando entram um burro e um burriqueiro por ali a dentro. Calmamente, o empregado de balcão estende ao burriqueiro, montado no seu burro, uma imponente caneca de cerveja e ao burro, que suportava o peso do seu burriqueiro, uma não menos imponente tigela... de cerveja, bem entendido. Beberam, arrotaram os dois, o burro fez um ronco medonho, e regressaram pelo mesmo caminho.”
A história do capitão Curado era extremamente dura, inacreditável, pessoal e intransmissível. Fiquei, um dia, com o peito cheio de vaidade pela distinção que me fez quando me disse, que esta história era mesmo verdade e não uma rotunda treta, como todos pensavam.
Dias depois vi-o, agradeci-lhe, ele sorriu, deu-me uma palmada no ombro, e disse-me:
- É bom ver-te crescer.
Gostava tanto de o rever, sentado comigo, naquela ou noutra esplanada, onde já não vou há anos. E falaríamos, certamente falaríamos acerca de coisas simples e belas como o episódio do burro; sobre o rio; sobre Pitágoras. Falaríamos e éramos, agora, os dois da mesma idade, porque o tempo nunca o tinha envelhecido. Os dois da mesma idade. Mas, sobretudo, dois amigos sentados na mesma esplanada a ver o rio.
1 comentário:
Li este apenas...passei os olhos pelos outros. Um de cada vez, ler, reler, sentir...magnífico. O que estará por trás de tanta sensibilidade? Sofrimento, dor acumulada e ainda nao ultrapassada. Adorei. Irei ver com muita calma cada um.
Pequenos pormenores...um copo virado sobre o gargalo...Bem-hajas
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