terça-feira, 9 de setembro de 2008

À MARGEM | OLÁ, EU SOU O JOÃO


Gostava de passear pela cidade iluminada, apesar daqueles dias gelados de Dezembro. Todas as cores do mundo a enfeitar as ruas que, muitas vezes, me pareceram apenas cinzentas. Os sorrisos colados à cara de toda aquela gente apressada e o sentir do cheiro bom das castanhas assadas. Sem perceber porquê sentia-me, de certa forma, feliz.
Às vezes, fazia de conta que estava sozinho no meio da multidão. Divertia-me ver aquelas senhoras tão atrapalhadas a embrulhar tantos presentes e os senhores a atender muita gente ao mesmo tempo, muito depressa.
Naquele dia gelado decidi falar com os mais carenciados. Não achava grande piada ver o Pai Natal, em todas as esquinas das ruas enfeitadas, dentro das lojas a pegar nos meninos ao colo. Alguns chegam a chorar. Não tinha graça nenhuma. Nunca acreditei naqueles homens gordos de barba branca e vestidos de encarnado, sempre me pareceram um bocado estúpidos. Nesse dia conheci um menino, que também se chamava João, e dei-lhe um rebuçado. Também ele não acreditava no Pai Natal. Gostei muito dele apesar de não o ter visto nunca mais. Mesmo assim, não faz mal, ficámos amigos.
Chamaram-me a atenção dois homens deitados, embrulhados num cobertor rasgado. Sozinho na cidade senti mais frio. Um dos homens tinha um velho rádio na mão, mas estava desligado. Tinha um cão castanho muito quieto. Parecia doente:
- Olá! Eu sou o João.
Os homens não responderam. Deviam estar a dormir, mesmo com o frio e o barulho daquela música que parecia não ter fim. Ao lado dos homens deitados no chão estava um menino loiro que os olhava fixamente, sem parar, mas não dizia nada. Estava sujo, descalço e até cheirava mal. Eu sabia que havia meninos que não tinham prendas, que nunca comiam bacalhau, que nunca se sentiam com a família à volta de uma mesa. Aquele era, por certo, um deles:
- Olá! Eu sou o João.
O menino fugiu assustado. Não queria brincar ou, então, era muito envergonhado. Lá fiquei sem um amigo que também não acreditava no Pai Natal. Naquela mesma rua havia também uma senhora pequenina, toda vestida de preto, dirigi-me a ela:
- Olá! Eu sou o João.
A velhinha mandou-me embora e virou costas. Não parou, nem olhou.
Sentado num degrau de pedra, ali ao lado, estava um rapaz com barba preta e um casaco azul, sujo e já rasgado. Tinha a cabeça encostada e parecia não estar a fazer nada.
- Olá! Eu sou o João.
O rapaz de casaco azul, já estragado, olhou para baixo e nem me disse palavra. Também não queria falar comigo. Parecia-me estranho nada quererem de mim, com tão visíveis dificuldades. Eram as únicas pessoas que ali estavam paradas...
Mais longe vi ainda uma menina a chorar. Estava também muito suja, tinha uns sapatos rotos e ninguém lhe ligava nenhuma. Se calhar era por estar assim despenteada. Tinha a cama ali feita ao lado, por certo costumava dormir ali mesmo, em cima de papelões embrulhada em cobertores rotos e muito sujos. Aquela menina, tinha a certeza, também não recebia prendas e devia estar muito cansada. Fui até lá:
- Olá! Eu sou o João.
Mal olhou para mim a pobre menina. Senti-me muito só e muito frio. Tinha falhado a minha estratégia de falar com alguém, sem anunciar nada. Tina intenção de trocar o calor de algumas palavras e de convidar um deles para lanchar comigo. Tinha-me faltado o mérito e a frieza para conseguir tal êxito.
Já sem acreditar na cidade iluminada, sem carinho, perdido, fiquei muito longe de mim. A lágrima que segurei a custo, no canto do olho, acabou por cair. Gelou-me o peito. Deixei de gostar de passear pela cidade iluminada que voltou a parecer-me mais cinzenta que nunca. Afinal não era tão bonita, como me parecia.
Muito envergonhado, naquele dia gelado de 23 de Dezembro, tive vontade de contar uma história. Seria triste, mas podia começar como quase todas as histórias, por “Era uma vez... o Natal” e acabar com “Olá! Eu sou o João”

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