
Há momentos em que tudo parece escapar-se das mãos. Aquele dia tinha sido um cheque sem cobertura. Tínhamos andado de pressa. Envolvia-nos uma bruma desconfortável. Parecia, até, que os reclamos luminosos e as lâmpadas não estavam bem acesos. Aparentava não haver ninguém, como se toda a gente tivesse ido para outro planeta. A solidão colheu-nos de improviso. E como ela um inabalável desejo de fazer qualquer coisa diferente, indefinida, desde tomar um café a uma façanha heróica. Contemplamos a vida e comparámo-la a uma loja onde há tudo, mas não tínhamos a receita para vivê-la. Era o vazio.
Nessa noite, contrariamente ao habitual, o João vagueava sem destino. Era um daqueles dias em que todos os planos tinham falhado, em que parece não se ter feito nada para salvar o vazio do desconsolo. A rapariga de quem gostava tinha faltado ao compromisso. Esperou por ela uma hora para ir ao cinema. Do café tinham já saído os amigos, cada um para seu lado. Sentiu-se, nesse momento, o único habitante da terra e incomodava-o essa sensação.
Decidiu entrar num bar de alterne, casa de putas para quase toda a gente, e tomar um copo de qualquer coisa forte, para esquecer; com um pé no estribo do balcão, o João pôs-se a pensar: o que é que eu quero?!... Era inevitável beber um copo, outro, uma dezena... Normalmente ao décimo os problemas costumam esquecer ou, pelo menos, perder peso; descobrem-se até alegrias, escondidas não sei onde.
Carla, uma das meninas, decote até ao umbigo, beijou-o com ternura inusitada. Todas aquelas mulheres são de amores fáceis. A saia, de tão pequena, deixava mostrar belas e provocantes coxas, superiormente torneadas. Assim se convertessem, às vezes, as dores humanas!... O pior é que João, indiferente à bela companheira, ao duodécimo copo dum maltratado uísque, se sentiu ainda mais só. E um homem que se sente só, depois de ter bebido uma dúzia de copos, com o décimo terceiro à frente, tem de estar verdadeiramente mal.
Possivelmente, João, ignorava ser a solidão uma doença parecida com a urticária. Pode estar-se muito bem e aparecer, a qualquer momento, uma irritação em toda a pele, nascida de uma qualquer secreta alergia. É assim a solidão. Pode estar-se feliz e um minuto depois, um minuto apenas, chegar o mal-estar da solidão. João compreendeu: não estava a sentir-se só, estava só.
Esta revelação, afogada em álcool, tornou-se dolorosa. Pensava não estar no bar há mais de uma hora mas, quando olhou para o relógio, calculou já haverem passado mais de três. Era muito mais de meia-noite.
Saiu de um bar e foi para outro. Estivera lá havia quatro noites, não por se sentir só mas por querer a companhia de qualquer uma das meninas. Aquela com quem tinha estado nessa noite tinha sido muito agradável. Bastante bonita. E até capaz de dar algo que não deve esperar-se em situações tais: ternura. Tinha revelado uma cálida simpatia e outras coisas que se não podem dizer, por indiscretas.
João chegou e ficou de pé ao balcão; muitas mesas, ao redor delas muitas meninas, putas, como lhes chamam, para as diferenciar das outras mulheres, supostamente mais sérias, meninas que vão ganhando a vida com comissões no inflacionado preço dos copos que bebem com quem as convida, quanto mais copos, mais dinheiro, por isso gostam de quem lhes pague muitos copos. Há casos em que gostam mesmo do cliente e vão para a cama com ele, a troco de nada, por mera simpatia, se, na altura, não houver outro que pague o serviço. Tudo isto é variável porque também aquela gente tem sentimentos. Muito haveria para falar sobre isto...
As coisas ficaram pior ainda. Aquilo estava pouco concorrido. Dois ou três pares perdidos em tanta mesa. Em frente à pista, onde se dança, uma das mesas albergava o resto das meninas, segredando umas com as outras. O João foi sentar-se numa mesa, em frente delas. Só, apoiou o cotovelo no tampo e deixou cair a cara sobre a mão, magicando e tentando adivinhar se o que estava diante delas se parecia com um objecto ou com uma pessoa. Elas acabariam por dar a resposta. Se parecesse gente, Silvia, a menina que deveria estar entre elas e que dormira com ele quatro noites antes, sem qualquer recompensa, haveria de vir ter com ele, pensava. Recordou-a intensamente. Tinha a certeza de que, se ela ali estivesse e se aceitasse outro convite, a solidão o deixaria. Com a presença de Sílvia, voltaria ao mundo. Bem olhou para lá mas... não era possível reconhecê-la, tal a intensidade do álcool.
O senhor que serve às mesas do cabaré e que dirige as meninas, como hábil estratego, amavelmente se acercou a perguntar-lhe o que desejava tomar. Deve ter pensado que nem tudo ia bem e daí tão grande amabilidade. João não pediu que lhe trouxessem Sílvia, pediu antes que lhe aviasse um copo... uma garrafa... O senhor, muito experiente, aconselhou-lhe antes uma água.
A música começou a tocar. Os poucos pares que estavam nas mesas laterais, encostados à parede, foram para a pista dançar. De pronto, como que por milagre, descobriu o rosto de Sílvia por cima do ombro de um cavalheiro que entrava e a agarrava. Ar desleixado, muito velho. Sílvia também o viu e respondeu-lhe com um olhar indefinido. Ficou intrigado: será que o acusava de não ter avisado que vinha?
João ficou perdido. Se Sílvia estava com outro era seguro que não viria ter com ele. Mais uma calamidade. Sílvia foi levada pelo companheiro para o reservado e como este se sentava bem junto a ela e quase a beijava a falar-lhe. Não tinha dúvida: deveria estar a convidá-la para dormir. E esse convite, não feito por ele, magoava-o. Estiveram sentados muito pouco tempo. João olhou de soslaio como Sílvia se levantou: teria acertado? Viu como chegou ao balcão e falou com o dono do bar e fez as contas da noite. Mau sinal, pensou, porque elas fazem sempre as contas antes de sair. Cravou os olhos em Sílvia, acusadores. A desgraça que sentia trouxe-lhe a sensação de que Sílvia era muito mais bonita, pernas muito bem-feitas, lábios apetecíveis, corpo de modelo, cabelos soltos e negros, mas muito mais distante. Dava tudo para voltar a tê-la.
Estranhamente, Sílvia caminhou para ele e, sem dizer qualquer palavra, inclinou-se um pouco e beijou-o na cara. Nada mais. Saiu com o cavalheiro, muito velho e sujo. João sentia ainda aquele beijo cheio de uma ternura indesmentível, mágico, espontâneo. Um beijo que o trouxe de novo à terra, outra vez povoada por milhões de homens, risos, lágrimas.
Dias depois Sílvia fala a João da ternura que sentia pelo velho Joaquim e que, por isso, não podia voltar a sair com ele, com receio de o magoar, confessando que gostava mesmo do pobre velho. João aceitou a muito custo mas acabou por compreender, tentou demovê-la, mas de nada lhe valeu o esforço. Sílvia havia decidido tratar do seu Joaquim, como ternamente lhe ia chamando.
Muitas foram as vezes que teve de sustentar aquele velho avarento e solitário, muitas foram as vezes em que o viu criticar tanta despesa, tantos luxos, como dizia angustiado.
Numa manhã muito cinzenta, ao acordar, Sílvia dá com o seu companheiro morto. Havia tombado na noite como um passarinho, morrera sem que ninguém desse por isso.
João, dias mais tarde, vem reconfortar Sílvia no sentido de a voltar a prostituir. Esta recusa veementemente:
- Sou viúva do meu amor, não voltarás a ter-me.
No dia 23 de Setembro, pelo fim da tarde, uma Terça-feira, batem à porta. Sílvia, em trajes pouco convenientes, abre cautelosamente. Um senhor de bom porte, que veio a saber ser notário, esticou-lhe um maço de papéis, explicando perante os olhos espantados de Sílvia:
- É um testamento.
- Uma merda – respondeu Sílvia, empurrando-o porta fora, pensando ser mais um a tentar tirar proveito da enorme beleza física, que sabia possuir.
Foi difícil ao Dr. Sequeira convencer a menina de que as suas intenções eram sérias, mas acabou por entrar. Explicou, depois, perante a enorme incredibilidade de Sílvia, que o Sr Joaquim Ferreira, aquele velho avarento e pestilento que bem conhecia, lhe havia deixado em testamento, feito há vários meses, uma soma astronómica de bens, em dinheiro e imóveis. Qualquer coisa num nunca imaginara alguém poder possuir sozinho.
Nessa noite, contrariamente ao habitual, o João vagueava sem destino. Era um daqueles dias em que todos os planos tinham falhado, em que parece não se ter feito nada para salvar o vazio do desconsolo. A rapariga de quem gostava tinha faltado ao compromisso. Esperou por ela uma hora para ir ao cinema. Do café tinham já saído os amigos, cada um para seu lado. Sentiu-se, nesse momento, o único habitante da terra e incomodava-o essa sensação.
Decidiu entrar num bar de alterne, casa de putas para quase toda a gente, e tomar um copo de qualquer coisa forte, para esquecer; com um pé no estribo do balcão, o João pôs-se a pensar: o que é que eu quero?!... Era inevitável beber um copo, outro, uma dezena... Normalmente ao décimo os problemas costumam esquecer ou, pelo menos, perder peso; descobrem-se até alegrias, escondidas não sei onde.
Carla, uma das meninas, decote até ao umbigo, beijou-o com ternura inusitada. Todas aquelas mulheres são de amores fáceis. A saia, de tão pequena, deixava mostrar belas e provocantes coxas, superiormente torneadas. Assim se convertessem, às vezes, as dores humanas!... O pior é que João, indiferente à bela companheira, ao duodécimo copo dum maltratado uísque, se sentiu ainda mais só. E um homem que se sente só, depois de ter bebido uma dúzia de copos, com o décimo terceiro à frente, tem de estar verdadeiramente mal.
Possivelmente, João, ignorava ser a solidão uma doença parecida com a urticária. Pode estar-se muito bem e aparecer, a qualquer momento, uma irritação em toda a pele, nascida de uma qualquer secreta alergia. É assim a solidão. Pode estar-se feliz e um minuto depois, um minuto apenas, chegar o mal-estar da solidão. João compreendeu: não estava a sentir-se só, estava só.
Esta revelação, afogada em álcool, tornou-se dolorosa. Pensava não estar no bar há mais de uma hora mas, quando olhou para o relógio, calculou já haverem passado mais de três. Era muito mais de meia-noite.
Saiu de um bar e foi para outro. Estivera lá havia quatro noites, não por se sentir só mas por querer a companhia de qualquer uma das meninas. Aquela com quem tinha estado nessa noite tinha sido muito agradável. Bastante bonita. E até capaz de dar algo que não deve esperar-se em situações tais: ternura. Tinha revelado uma cálida simpatia e outras coisas que se não podem dizer, por indiscretas.
João chegou e ficou de pé ao balcão; muitas mesas, ao redor delas muitas meninas, putas, como lhes chamam, para as diferenciar das outras mulheres, supostamente mais sérias, meninas que vão ganhando a vida com comissões no inflacionado preço dos copos que bebem com quem as convida, quanto mais copos, mais dinheiro, por isso gostam de quem lhes pague muitos copos. Há casos em que gostam mesmo do cliente e vão para a cama com ele, a troco de nada, por mera simpatia, se, na altura, não houver outro que pague o serviço. Tudo isto é variável porque também aquela gente tem sentimentos. Muito haveria para falar sobre isto...
As coisas ficaram pior ainda. Aquilo estava pouco concorrido. Dois ou três pares perdidos em tanta mesa. Em frente à pista, onde se dança, uma das mesas albergava o resto das meninas, segredando umas com as outras. O João foi sentar-se numa mesa, em frente delas. Só, apoiou o cotovelo no tampo e deixou cair a cara sobre a mão, magicando e tentando adivinhar se o que estava diante delas se parecia com um objecto ou com uma pessoa. Elas acabariam por dar a resposta. Se parecesse gente, Silvia, a menina que deveria estar entre elas e que dormira com ele quatro noites antes, sem qualquer recompensa, haveria de vir ter com ele, pensava. Recordou-a intensamente. Tinha a certeza de que, se ela ali estivesse e se aceitasse outro convite, a solidão o deixaria. Com a presença de Sílvia, voltaria ao mundo. Bem olhou para lá mas... não era possível reconhecê-la, tal a intensidade do álcool.
O senhor que serve às mesas do cabaré e que dirige as meninas, como hábil estratego, amavelmente se acercou a perguntar-lhe o que desejava tomar. Deve ter pensado que nem tudo ia bem e daí tão grande amabilidade. João não pediu que lhe trouxessem Sílvia, pediu antes que lhe aviasse um copo... uma garrafa... O senhor, muito experiente, aconselhou-lhe antes uma água.
A música começou a tocar. Os poucos pares que estavam nas mesas laterais, encostados à parede, foram para a pista dançar. De pronto, como que por milagre, descobriu o rosto de Sílvia por cima do ombro de um cavalheiro que entrava e a agarrava. Ar desleixado, muito velho. Sílvia também o viu e respondeu-lhe com um olhar indefinido. Ficou intrigado: será que o acusava de não ter avisado que vinha?
João ficou perdido. Se Sílvia estava com outro era seguro que não viria ter com ele. Mais uma calamidade. Sílvia foi levada pelo companheiro para o reservado e como este se sentava bem junto a ela e quase a beijava a falar-lhe. Não tinha dúvida: deveria estar a convidá-la para dormir. E esse convite, não feito por ele, magoava-o. Estiveram sentados muito pouco tempo. João olhou de soslaio como Sílvia se levantou: teria acertado? Viu como chegou ao balcão e falou com o dono do bar e fez as contas da noite. Mau sinal, pensou, porque elas fazem sempre as contas antes de sair. Cravou os olhos em Sílvia, acusadores. A desgraça que sentia trouxe-lhe a sensação de que Sílvia era muito mais bonita, pernas muito bem-feitas, lábios apetecíveis, corpo de modelo, cabelos soltos e negros, mas muito mais distante. Dava tudo para voltar a tê-la.
Estranhamente, Sílvia caminhou para ele e, sem dizer qualquer palavra, inclinou-se um pouco e beijou-o na cara. Nada mais. Saiu com o cavalheiro, muito velho e sujo. João sentia ainda aquele beijo cheio de uma ternura indesmentível, mágico, espontâneo. Um beijo que o trouxe de novo à terra, outra vez povoada por milhões de homens, risos, lágrimas.
Dias depois Sílvia fala a João da ternura que sentia pelo velho Joaquim e que, por isso, não podia voltar a sair com ele, com receio de o magoar, confessando que gostava mesmo do pobre velho. João aceitou a muito custo mas acabou por compreender, tentou demovê-la, mas de nada lhe valeu o esforço. Sílvia havia decidido tratar do seu Joaquim, como ternamente lhe ia chamando.
Muitas foram as vezes que teve de sustentar aquele velho avarento e solitário, muitas foram as vezes em que o viu criticar tanta despesa, tantos luxos, como dizia angustiado.
Numa manhã muito cinzenta, ao acordar, Sílvia dá com o seu companheiro morto. Havia tombado na noite como um passarinho, morrera sem que ninguém desse por isso.
João, dias mais tarde, vem reconfortar Sílvia no sentido de a voltar a prostituir. Esta recusa veementemente:
- Sou viúva do meu amor, não voltarás a ter-me.
No dia 23 de Setembro, pelo fim da tarde, uma Terça-feira, batem à porta. Sílvia, em trajes pouco convenientes, abre cautelosamente. Um senhor de bom porte, que veio a saber ser notário, esticou-lhe um maço de papéis, explicando perante os olhos espantados de Sílvia:
- É um testamento.
- Uma merda – respondeu Sílvia, empurrando-o porta fora, pensando ser mais um a tentar tirar proveito da enorme beleza física, que sabia possuir.
Foi difícil ao Dr. Sequeira convencer a menina de que as suas intenções eram sérias, mas acabou por entrar. Explicou, depois, perante a enorme incredibilidade de Sílvia, que o Sr Joaquim Ferreira, aquele velho avarento e pestilento que bem conhecia, lhe havia deixado em testamento, feito há vários meses, uma soma astronómica de bens, em dinheiro e imóveis. Qualquer coisa num nunca imaginara alguém poder possuir sozinho.
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