
Desci às sete cidades para provar a morcela com ananás, depois de galgar a divisória das lagoas, cuja saúde não anda muito boa. De costas para uma pequena capelinha, com a inscrição “Vinde Espírito Santo”, apontei a máquina fotográfica ao coreto junto à igreja matriz. Foi nesse instante que surgiu, saído inesperadamente de uma ruela, um homem montado numa bicicleta. O homem pedalava energicamente. No quadro da bicicleta ia uma criança. O homem trazia na mão direita uma pequena corda, de aí uns dois metros apenas. Preso à corda, num quase galope, um cavalo castanho. Não um cavalo de carga, daqueles usados no trabalho do campo, mas um belo alazão, cheio de nobreza, altivo: As linhas todas de um puro sangue.
Durou nem sequer dez segundos esta cena crepuscular: O homem pedalando energicamente na bicicleta, uma criança que se sentava no quadro, o cavalo de crinas ao vento, preso por uma corda curta, muito curta, num galope crescente, o conjunto perdendo-se na bruma crepuscular, para os lados da lagoa. Tudo muito rápido. Do interior do meu carro, alugado na véspera, pela janela aberta, os últimos acordes do requiem de Mozart empurravam os ventos para a Atlântida. Na rádio alguém disse: “Uma hora a menos nos Açores”. E pensei eu, já a caminho do Pico: o que é uma hora a menos, poucos instantes, nesta imponderável eternidade.
A manhã crescia num dos maiores santuários de baleias do mundo. Muitos eram os sons captados por hidrofone a partir dos barcos da aventura, os barcos de Sérgio, que levam os turistas muito perto das baleias piloto, dos rauces, dos golfinhos pintados, das orcas falsas, são os barcos que partem das Lages do Pico, só que agora sem arpuadores. A um sinal de mestre João ou de outro qualquer dos vários vigias existentes nos pontos de observação do Pico e do Faial, os barcos partem ao encontro dos grandes animais marinhos. A única arma é, agora, a máquina fotográfica. Por isso é que as águas do Pico e do Faial voltaram a ser um santuário.
Ouviam-se, agora, vozes de euforia, vindas de uma pequena embarcação, de onde se disparavam, já não arpões, mas máquinas fotográficas. Um pouco adiante na Ponta da Queimada, mestre João, o homem que sempre vigiou baleias, quando elas eram alvo dos arpuadores, continuava no seu posto atrás dos binóculos. Não havia, já, foguetes de sinalização, mestre João era então um vigia reciclado ao serviço do turismo de aventura.
Nessa manhã vimos passar uma baleia a três ou quatro milhas da costa. Dois picarotos militantes levaram-me pelos trilhos abertos na primitiva terra de lava onde, desde os tempos de Frei Gigante, nasce o célebre verdelho. Toda essa linha de costa fronteira ao Faial, de S. Caetano à Madalena é um prodígio de realização humana, um imenso labirinto de muretes de basalto, protegendo as videiras do vento forte do canal. São milhões de pedras negras alinhadas na matriz vulcânica do Pico.
Disse-me um dos meus amigos de aventura que os técnicos da UNESCO viram lá razões bastantes para a classificação da zona como Património da Humanidade e que nada justificava que o processo não avançasse. Disse-me ainda que, cálculos feitos na Universidade dos Açores, confirmavam a sua velha ideia: Se as pedras que erguem os muros do chão de lava, onde cresce o vinho verdelho, fossem alinhadas uma após outra, poderiam dar a volta ao mundo na linha do equador.
Ora, ao escutar a fórmula do meu amigo e ao tentar perceber a importância das baleias no brilho do olhar de mestre João, no posto de vigia, fiquei como S.to Agostinho diante do menino na praia, porque percebi muito bem um e outro.
Diante daquele chão de lava interroguei-me sobre o modo como um homem, com raízes profundas na sua própria ilha e sem nunca de lá ter saído, pode dar a volta ao mundo. Esse foi o mistério que, já viradas as costas aos cais da Madalena do Pico a caminho da Horta, me foi acompanhando e que me segue ainda. Não há cálculos matemáticos, nem binóculos, que me ajudem a resolvê-lo.
Contemplando agora, já na Horta, as novas e antigas pinturas da marina, da recatada magia de Porto Pim, onde não vislumbrei a mulher de branco, entrei na casa de nós todos: O porto de abrigo da mais estranha comunidade de lobos-do-mar e de outras andarilhas criaturas.
O Peter, esse Café Sport, de José Henrique, ele que do mar sabe segredos tamanhos, ele que na grande rebentação, de há uns anos, fotografou, trazido por um vento ciclónico de duzentos e cinquenta quilómetros por hora, o rosto de Neptuno, erguido contra o Monte da Guia, numa onda de sessenta metros de altura. Dessa noite chuvosa da Horta guardo o postal de Neptuno que José Henrique me ofereceu dizendo-me:
- Muita coisa você vai ver, no novo ano que aí vem, se não for cego. O novo ano terá os dias a seguir uns aos outros, não principiando um sem que acabe o outro; metade dos dias serão brancos e outra metade pretos, chamando-se a esta metade noite. A noite será a grande amiga das pessoas feias, porque ninguém dá conta da sua fealdade. Não se aflija, porém, o meu amigo que de noite não se perde a vista, vê-se como de dia, o que atrapalha é o escuro e o sono. A lua andará constantemente a mudar de quarto, como uma concubina…
Foram alguns copos, sorrisos fraternos de muitos andarilhos do mar, muitas histórias, fragmentos de vidas de paixões e aquele discurso bem-disposto e aparentemente decorado que gozei nessa noite chuvosa de Angra. Ora, eu que andei a mudar de ilha como quem muda de camisa, cuido que o mais valioso património que colhi, foi a sábia interpretação dos elementos da vida. No Peter, depois da aprazada e saborosíssima sopa de peixe, para a sossega, renovava-se na parede, via Internet, o desenho do mar, a calmaria ou borrasca prometidas, os ventos dominantes, o bom e o mau tempo no canal.
Quanto ao mais, dei comigo a cismar como Raul Brandão, quando por lá andou no verão de vinte e quatro, que por baixo dos meus pés o vulcão continuava a cozinhar, a fogo brando, não sei que refugado. Enquanto olhava o balouçar dos muitos mastros, pela janela, pensava que não era terra firme o chão da ilha em que me sentava e que o mais certo é que sonharia, uma noite dessas, que iria eu próprio de ilha pelo mar fora.
Durou nem sequer dez segundos esta cena crepuscular: O homem pedalando energicamente na bicicleta, uma criança que se sentava no quadro, o cavalo de crinas ao vento, preso por uma corda curta, muito curta, num galope crescente, o conjunto perdendo-se na bruma crepuscular, para os lados da lagoa. Tudo muito rápido. Do interior do meu carro, alugado na véspera, pela janela aberta, os últimos acordes do requiem de Mozart empurravam os ventos para a Atlântida. Na rádio alguém disse: “Uma hora a menos nos Açores”. E pensei eu, já a caminho do Pico: o que é uma hora a menos, poucos instantes, nesta imponderável eternidade.
A manhã crescia num dos maiores santuários de baleias do mundo. Muitos eram os sons captados por hidrofone a partir dos barcos da aventura, os barcos de Sérgio, que levam os turistas muito perto das baleias piloto, dos rauces, dos golfinhos pintados, das orcas falsas, são os barcos que partem das Lages do Pico, só que agora sem arpuadores. A um sinal de mestre João ou de outro qualquer dos vários vigias existentes nos pontos de observação do Pico e do Faial, os barcos partem ao encontro dos grandes animais marinhos. A única arma é, agora, a máquina fotográfica. Por isso é que as águas do Pico e do Faial voltaram a ser um santuário.
Ouviam-se, agora, vozes de euforia, vindas de uma pequena embarcação, de onde se disparavam, já não arpões, mas máquinas fotográficas. Um pouco adiante na Ponta da Queimada, mestre João, o homem que sempre vigiou baleias, quando elas eram alvo dos arpuadores, continuava no seu posto atrás dos binóculos. Não havia, já, foguetes de sinalização, mestre João era então um vigia reciclado ao serviço do turismo de aventura.
Nessa manhã vimos passar uma baleia a três ou quatro milhas da costa. Dois picarotos militantes levaram-me pelos trilhos abertos na primitiva terra de lava onde, desde os tempos de Frei Gigante, nasce o célebre verdelho. Toda essa linha de costa fronteira ao Faial, de S. Caetano à Madalena é um prodígio de realização humana, um imenso labirinto de muretes de basalto, protegendo as videiras do vento forte do canal. São milhões de pedras negras alinhadas na matriz vulcânica do Pico.
Disse-me um dos meus amigos de aventura que os técnicos da UNESCO viram lá razões bastantes para a classificação da zona como Património da Humanidade e que nada justificava que o processo não avançasse. Disse-me ainda que, cálculos feitos na Universidade dos Açores, confirmavam a sua velha ideia: Se as pedras que erguem os muros do chão de lava, onde cresce o vinho verdelho, fossem alinhadas uma após outra, poderiam dar a volta ao mundo na linha do equador.
Ora, ao escutar a fórmula do meu amigo e ao tentar perceber a importância das baleias no brilho do olhar de mestre João, no posto de vigia, fiquei como S.to Agostinho diante do menino na praia, porque percebi muito bem um e outro.
Diante daquele chão de lava interroguei-me sobre o modo como um homem, com raízes profundas na sua própria ilha e sem nunca de lá ter saído, pode dar a volta ao mundo. Esse foi o mistério que, já viradas as costas aos cais da Madalena do Pico a caminho da Horta, me foi acompanhando e que me segue ainda. Não há cálculos matemáticos, nem binóculos, que me ajudem a resolvê-lo.
Contemplando agora, já na Horta, as novas e antigas pinturas da marina, da recatada magia de Porto Pim, onde não vislumbrei a mulher de branco, entrei na casa de nós todos: O porto de abrigo da mais estranha comunidade de lobos-do-mar e de outras andarilhas criaturas.
O Peter, esse Café Sport, de José Henrique, ele que do mar sabe segredos tamanhos, ele que na grande rebentação, de há uns anos, fotografou, trazido por um vento ciclónico de duzentos e cinquenta quilómetros por hora, o rosto de Neptuno, erguido contra o Monte da Guia, numa onda de sessenta metros de altura. Dessa noite chuvosa da Horta guardo o postal de Neptuno que José Henrique me ofereceu dizendo-me:
- Muita coisa você vai ver, no novo ano que aí vem, se não for cego. O novo ano terá os dias a seguir uns aos outros, não principiando um sem que acabe o outro; metade dos dias serão brancos e outra metade pretos, chamando-se a esta metade noite. A noite será a grande amiga das pessoas feias, porque ninguém dá conta da sua fealdade. Não se aflija, porém, o meu amigo que de noite não se perde a vista, vê-se como de dia, o que atrapalha é o escuro e o sono. A lua andará constantemente a mudar de quarto, como uma concubina…
Foram alguns copos, sorrisos fraternos de muitos andarilhos do mar, muitas histórias, fragmentos de vidas de paixões e aquele discurso bem-disposto e aparentemente decorado que gozei nessa noite chuvosa de Angra. Ora, eu que andei a mudar de ilha como quem muda de camisa, cuido que o mais valioso património que colhi, foi a sábia interpretação dos elementos da vida. No Peter, depois da aprazada e saborosíssima sopa de peixe, para a sossega, renovava-se na parede, via Internet, o desenho do mar, a calmaria ou borrasca prometidas, os ventos dominantes, o bom e o mau tempo no canal.
Quanto ao mais, dei comigo a cismar como Raul Brandão, quando por lá andou no verão de vinte e quatro, que por baixo dos meus pés o vulcão continuava a cozinhar, a fogo brando, não sei que refugado. Enquanto olhava o balouçar dos muitos mastros, pela janela, pensava que não era terra firme o chão da ilha em que me sentava e que o mais certo é que sonharia, uma noite dessas, que iria eu próprio de ilha pelo mar fora.
Sem comentários:
Enviar um comentário