
É preciso conhecer Buenos Aires para entender o mistério dos seus mitos. Percorri, com calma, as ruas inigualáveis de La Boca e sentei-me nas margens sujas de Riachuelo para tentar perceber a força duma saudade que vem dos tempos em que os marinheiros genoveses se instalaram no rio de La Plata, edificando as suas construções em latão, alumínio e ferro, na sua maior parte roubados aos navios que apodreciam nas águas sujas do porto, e mais tarde pintadas com cores garridas de uma alegria inexistente, roxos, laranjas, verdes e azuis misturados ao longo de Avellaneda.
Por entre um pensativo cigarro, com os putos a chilrear à volta, veio-me à ideia Benito Quintela Martin, que espalhou pelo mundo os traços duma policromia única. Fixei o olhar no beco que entra pelo bairro até ao largo onde nasceu o Boca Juniors, a equipa de Maradona e do povo. Lembrei Caminito que Gardel cantou de forma sensual e melancólica fazendo do tango outro hino da Argentina. Mi Buenos Aires Querido, é o sentir dos descamisados. Mi Noche Triste é, das mais variadas formas, o fim de uma era e o começo de outra. O fim de uma quando o corpo do pibe de Abasto, o bairro que fica junto ao mercado central e que tem hoje uma estação de metropolitano com nome do imortal Gardel, entrou nas águas chocas e mal cheirosas do La Plata, com milhares de argentinos, de lenços na mão, a dedicarem-lhe o derradeiro adeus, e o princípio de outra por dar lugar ao Astor Piazzola que levou o tango para a Europa, um tango diferente, estilizado, sensual e polémico.
Ali, no meu lugar, naquele fim de tarde, sentado à beira rio, era já possível ouvir os acordes chorosos dos bandoneones e as letras sanguinárias das milongas. Era possível ver os meninos da Colonel Salvadores a trocar, descalços, a bola de borracha sobre as linhas apertadas do comboio que atravessa La Boca, por entre montes de entulho e casas arruinadas.
Estava longe da avenida Rivadavia, uma das visitas obrigatórias, que termina no Parque Colón, na Casa Rosada e na Plaza de Mayo, onde as mães desesperaram pelos filhos desaparecidos no tempo dos generais, repetindo o gesto de Eva Peron em 1945, protestando contra a breve detenção do marido, longe do cemitério onde repousa Evita com seu epitáfio, “Don’t cry for me Argentina!”, imortalizado por Tim Race e Lloyd Webber, num musical que correu o mundo. Pulavam naquelas ruas os mesmos putos, os mesmos sonhos, as mesmas cores, os mesmos mitos.
Buenos Aires é uma cidade fantástica, de avenidas largas, noites suaves e um povo alegre e culto, orgulhoso do seu país como ninguém mais no planeta. Uma paixão mística pelos seus mitos que nos traz, ainda nos dias de hoje, até mesmo na genialidade moderna de Astor Piazzola, recentemente falecido, a fantástica sedução do tango.
Ébrio de tantas cogitações à volta dos mitos argentinos nem dei por um puto da rua, igual a tantos os outros das grandes cidades, apenas mais orgulhosos da sua rua, trazia na cara a amargura dos dias difíceis e o sorriso da esperança de ser contemplado na teimosia, tocava-me insistentemente na perna que pendia do muro da margem do rio La Plata. Quando, por segundos, olhei para ele, atirou:
- Amigo, dá-me uma moeda por favor... É para poder comprar aquela camiseta às riscas, número 10.
Em volta, por entre muitos símbolos argentinos, lá estavam inúmeras camisolas da Argentina, todas enormes, a lembrar Diego Maradona, que tentaram reconstruir até ao pormenor, com os mesmos fragmentos de pessoa que foram pelos ares quando lhe rebentou no estômago uma carga de cocaína. O puto da bola de borracha apontava para elas exibindo uns trocados que já conseguira de alguns turistas. Espantado perguntei-lhe:
- Para que queres tu uma camisola tão grande?
Sem hesitação, como se tivesse estudado há muito o discurso:
- Vestir a camiseta azul às riscas, número dez, é tocar no céu!
Obriguei-o, com muito custo, a vesti-la. O garoto teimava em não o fazer porque não a querer macular com o corpo suado e sujo. A camisola chegava-lhe aos pés. Os olhos brilhantes e vivos do puto fugidio tocaram efectivamente o céu. Despiu-a, embrulhou-a religiosamente, correu como louco até desaparecer no fim da rua.
Voltei a sentar-me. O cair da tarde e o brilho cintilante dos olhos do garoto lembraram-me Eva Peron que o cancro roubara a vida aos trinta e três anos depois ascensão meteórica que a levou dum bairro de lata até ao trono em que nenhuma mulher se sentara, Che Guevara que tinha os mesmos trinta e três anos quando o exército boliviano o fuzilou em La Higuera e Maradona que a toxicodependência tinha valido meses e meses de verdadeiro sofrimento argentino. Todos eles, argentinos, tinham saído da humildade, dos arrabaldes de Buenos Aires, para o topo do mundo e, todos eles, tinham visto o fim da sua carreira no auge dela e, todos eles, tinham tido uma necessidade enorme de contacto com o povo que os admiravam.
Para muitos meninos do bairro, e não só para aquele puto, vestir a camisola número 10 do mítico Maradona, que marcava golos com mão de Deus e pés de génio é, ainda hoje, tocar no céu...
Por entre um pensativo cigarro, com os putos a chilrear à volta, veio-me à ideia Benito Quintela Martin, que espalhou pelo mundo os traços duma policromia única. Fixei o olhar no beco que entra pelo bairro até ao largo onde nasceu o Boca Juniors, a equipa de Maradona e do povo. Lembrei Caminito que Gardel cantou de forma sensual e melancólica fazendo do tango outro hino da Argentina. Mi Buenos Aires Querido, é o sentir dos descamisados. Mi Noche Triste é, das mais variadas formas, o fim de uma era e o começo de outra. O fim de uma quando o corpo do pibe de Abasto, o bairro que fica junto ao mercado central e que tem hoje uma estação de metropolitano com nome do imortal Gardel, entrou nas águas chocas e mal cheirosas do La Plata, com milhares de argentinos, de lenços na mão, a dedicarem-lhe o derradeiro adeus, e o princípio de outra por dar lugar ao Astor Piazzola que levou o tango para a Europa, um tango diferente, estilizado, sensual e polémico.
Ali, no meu lugar, naquele fim de tarde, sentado à beira rio, era já possível ouvir os acordes chorosos dos bandoneones e as letras sanguinárias das milongas. Era possível ver os meninos da Colonel Salvadores a trocar, descalços, a bola de borracha sobre as linhas apertadas do comboio que atravessa La Boca, por entre montes de entulho e casas arruinadas.
Estava longe da avenida Rivadavia, uma das visitas obrigatórias, que termina no Parque Colón, na Casa Rosada e na Plaza de Mayo, onde as mães desesperaram pelos filhos desaparecidos no tempo dos generais, repetindo o gesto de Eva Peron em 1945, protestando contra a breve detenção do marido, longe do cemitério onde repousa Evita com seu epitáfio, “Don’t cry for me Argentina!”, imortalizado por Tim Race e Lloyd Webber, num musical que correu o mundo. Pulavam naquelas ruas os mesmos putos, os mesmos sonhos, as mesmas cores, os mesmos mitos.
Buenos Aires é uma cidade fantástica, de avenidas largas, noites suaves e um povo alegre e culto, orgulhoso do seu país como ninguém mais no planeta. Uma paixão mística pelos seus mitos que nos traz, ainda nos dias de hoje, até mesmo na genialidade moderna de Astor Piazzola, recentemente falecido, a fantástica sedução do tango.
Ébrio de tantas cogitações à volta dos mitos argentinos nem dei por um puto da rua, igual a tantos os outros das grandes cidades, apenas mais orgulhosos da sua rua, trazia na cara a amargura dos dias difíceis e o sorriso da esperança de ser contemplado na teimosia, tocava-me insistentemente na perna que pendia do muro da margem do rio La Plata. Quando, por segundos, olhei para ele, atirou:
- Amigo, dá-me uma moeda por favor... É para poder comprar aquela camiseta às riscas, número 10.
Em volta, por entre muitos símbolos argentinos, lá estavam inúmeras camisolas da Argentina, todas enormes, a lembrar Diego Maradona, que tentaram reconstruir até ao pormenor, com os mesmos fragmentos de pessoa que foram pelos ares quando lhe rebentou no estômago uma carga de cocaína. O puto da bola de borracha apontava para elas exibindo uns trocados que já conseguira de alguns turistas. Espantado perguntei-lhe:
- Para que queres tu uma camisola tão grande?
Sem hesitação, como se tivesse estudado há muito o discurso:
- Vestir a camiseta azul às riscas, número dez, é tocar no céu!
Obriguei-o, com muito custo, a vesti-la. O garoto teimava em não o fazer porque não a querer macular com o corpo suado e sujo. A camisola chegava-lhe aos pés. Os olhos brilhantes e vivos do puto fugidio tocaram efectivamente o céu. Despiu-a, embrulhou-a religiosamente, correu como louco até desaparecer no fim da rua.
Voltei a sentar-me. O cair da tarde e o brilho cintilante dos olhos do garoto lembraram-me Eva Peron que o cancro roubara a vida aos trinta e três anos depois ascensão meteórica que a levou dum bairro de lata até ao trono em que nenhuma mulher se sentara, Che Guevara que tinha os mesmos trinta e três anos quando o exército boliviano o fuzilou em La Higuera e Maradona que a toxicodependência tinha valido meses e meses de verdadeiro sofrimento argentino. Todos eles, argentinos, tinham saído da humildade, dos arrabaldes de Buenos Aires, para o topo do mundo e, todos eles, tinham visto o fim da sua carreira no auge dela e, todos eles, tinham tido uma necessidade enorme de contacto com o povo que os admiravam.
Para muitos meninos do bairro, e não só para aquele puto, vestir a camisola número 10 do mítico Maradona, que marcava golos com mão de Deus e pés de génio é, ainda hoje, tocar no céu...
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