sexta-feira, 12 de setembro de 2008

À MARGEM | TRINCHEIRA


De pronto todas as cabeças desapareceram. Arregalou os olhos, levantou levemente a cabeça na tentativa de se localizar e de medir o perigo. Era preciso furar a barricada para se pôr a salvo. Perdido, ali, único sobrevivente dos ocupantes de um helicóptero que não tinha conseguido escapar aos mísseis. Queimados, nos destroços, tinham ficado onze jovens, valentes camaradas, de uns mal contados vinte anos. Portugueses numa Angola já perdida. Corria o ano de setenta e um.
No campo, os soldados inimigos corriam em todas as direcções. Um súbito e pavoroso clarão iluminou a noite escura, envolvendo os corpos. Alguns sem cabeça. Braços agitados confusamente como quem dança, macabra e sangrenta. Os seus camaradas tinham acertado em cheio.
Muito tenso, ficou entrincheirado num pequeno buraco aberto, quase providencialmente, por uma granada que ali caíra, minutos antes. Um abrigo divino no meio do inimigo.
O ruído metralhava os tímpanos. Cresceu o terror, cerrou punhos e dentes. Os rostos em volta, ensanguentados, reflectiam um pavor indescritível. Era a guerra. Não perseguiam ninguém. Vasculhavam feridos por entre mortos, em movimentos absurdos. Desapareciam, voltavam a aparecer, voavam em pedaços a mais um balázio bem sucedido.
Começou a ouvir a cadência ritmada e forte, de tanta proximidade, de uma metralhadora. Chorou de medo. Gritos e mais gritos apunhalaram a espinha dorsal. O pavor apertou-lhe o peito.
A muito a custo, conseguiu vestir um camuflado inimigo, roubado dum corpo morto ali mesmo, ao lado, caído. Reapareceram cabeças e corpos, saltavam à esquerda e à direita, uns sobre os outros.
Sem a arma, perdida no acidente aéreo, atirou-se indiferente ao perigo para fora do buraco, na ânsia desesperada de encontrar lugar mais seguro na praia, perto. Escondeu-se na primeira vala que encontrou, polvilhada de cadáveres. Por entre os corpos, alguém avançou para ele, negro, ensanguentado e armado até aos dentes. Ficou imóvel, gélido até a medula mais profunda dos ossos. Quase deixou de respirar. Acalentou lenta e ténue esperança de que o camuflado roubado antes lhe pudesse, por semelhança, fazer alguma protecção.
O homem, erguido por entre mortos, foi-se aproximando atirando algumas, poucas, palavras. Nem uma sequer percebeu. A cada passo da estranha personagem o seu coração reagia apertando o peito. O medo de ser descoberta a camuflagem, roubada, atirou-o para um pranto soluçado e violento. O homem, estranhamente enternecido, reconhecendo o inimigo que a pele não podia esconder, num português quase perfeito:
- Que fazes aqui?
Dúvida nenhuma de que tinha sido descoberto, tal a proximidade. Entre soluços:
- Vais matar-me?
- Para quê matar-te se nada tenho contra ti? Ambos desejamos, apenas, não morrer. Basta que fiquemos quietos para cumprir este desejo.
Largou a metralhadora, envolveu-o num abraço profundo:
- Amigo!

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