
Era um dia de pouco sol, de um tristonho fim de Setembro, que o Verão há muito se tinha ido embora. Empurrado por um programa matinal de rádio, visitei uma casa de crianças abandonadas, num dos bairros pobres da cidade de Lisboa. Mais de uma dúzia sob a protecção de uma só senhora. Usavam todos um bibe azul e branco, que cobria a roupa que D. Emília, a mulher que descobre a miséria daqueles miúdos, recebe dos vizinhos e vai moldando ao corpo de cada um. Usavam todos sandálias, embora os rapazes preferissem sapatilhas para jogar à bola. Transformava lençóis rotos em batas, que os meninos levavam para a escola, ali mesmo ao lado. Cortava e cosia todos os bocadinhos para criar panos de louça e estava sempre pronta para acudir aos calções rasgados e às nódoas da sobremesa nos bibes coloridos. Ainda não sei se é por lhes conhecer a nudez se é por aquele ar acolhedor, que todos lhe contam os segredos e a tratam por mãe.
Podia ler-se nas paredes rachadas e nas janelas, que deixavam entrar água e que por isso tinham de ser vedadas com cobertores, as grandes dificuldades daquela casa. Alguma coisa haveria de ser resolvida lá para a Primavera, dizia a D. Emília, com os mil contos que uma senhora, uma antiga menina daquela casa, que ainda a tratava por mãe, lhe tinha mandado do Canadá, como resultado de uma festa que lá organizara, com o intuito de ajudar a casa que lhe tinha dado a vida, como dizia na carta que transportava o cheque. Quando se trabalha com amor, tudo se resolve – rematava com um contentamento enorme a D. Emília.
Mas a história também se revela nos sorrisos de todas as crianças que por lá passam e no orgulho de D. Emília que apontava, nas fotografias do grupo, com vários anos, as pessoas, algumas famosas, que lhe passaram pelas mãos e a quem a vida trouxera sucesso.
Um garoto franzino, de olhar reguila, cabelo muito preto e quase rapado, vindo de um tratamento de choque para os muitos piolhos que trazia, quando chegou ao lar, soube-o depois estar lá há pouco mais de quinze dias, contava-me com visível agrado que nunca tinha dormido numa cama e que também ali tinha comido arroz doce pela primeira vez. Adorava sopa de chocolate, dizia, o nome com que baptizava a delícia da sopa de feijão, que saía dos enormes panelões de D. Emília, fumegantes na velha, mas muito limpa, cozinha e das mãos divinas de D. Emília.
De repente, entrou um rapaz de uns mal contados quinze anos. Apareceu de bicicleta, ofegante, com uma prenda debaixo do braço. Disse que, como era o dia de anos da D. Emília, a mãe lhe tinha dado dinheiro e que a bicicleta era do irmão mais velho. Ela deixou cair uma lágrima, que não conseguiu disfarçar, e abraçou fortemente o seu menino contra aquele peito gasto de tantas canseiras, como se não soubesse que o Diogo não tinha mãe, nem irmão, nem ninguém.
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