terça-feira, 9 de setembro de 2008

À MARGEM | CASAL VENTOSO


Casal Ventoso é um lugar, em Lisboa, onde não chega a vida e onde, todos os dias, se morre. Centenas de toxicodependentes procuram, de uma certa forma, o suicídio objectivo. São muitas as imagens chocantes do quotidiano no bairro e o testemunho impressionante dos seus residentes.
Enroscado na parede, Nando, trinta e sete anos mascarados do sessenta, precisa de alguém que o injecte, por causa de um defeito na mão. Há vinte e dois anos que se droga. Ficou agarrado, logo aos quinze, apesar de várias tentativas frustadas de cura.
Nando jurou-me que não roubava, mas não entrou em pormenores. Pedia na rua e arrumava carros ao pé da FIL. A custo lá me foi dizendo que a relação com a família era má, que os pais haviam perdido a capacidade de resistir à influência da droga na vida do filho:
- Não chegam os dedos das mãos e dos pés para contar as vezes que tentei largar isto... Mas é aqui, dentro da cabeça, que eu sinto a falta, não é no corpo. A droga faz-nos bem... A gente não sente nada, absolutamente nada... Nem sequer medo... Nada... Nem fome, nem frio, nem dores. Sentimo-nos muito bem. A primeira dose do dia, é pá, tem que ser no pescoço... Sabes!... já não tenho veias em lado nenhum, já piquei as pernas e os pés... Os braços já estão secos... E, aqui no pescoço, já só me faltam estas duas da frente. Até já espetei até no caralho!.. É verdade, não acreditas?.. A sério!.. Tenho veias duras por todo o lado.
O Chico, seu companheiro, ali ao lado, tinha melhor ar, era um tipo baixinho de cabelo curto, quase sem barba. Tinha ar de se lavar mais vezes que os outros, parecia ser mais organizado. Num discurso de muitos silêncios:
- Nem sei o que estou aqui a fazer. Eu não tenho nada a ver com estes gajos, fartava-me de ganhar dinheiro... Traficava e nunca consumia... Depois saí da prisão e estoirei tudo... Tinha casa... Agora estou metido nisto... Antes tinha dinheiro e não consumia, Agora não tenho um tostão e consumo... Adoro os meus pais, é verdade. São a melhor coisa do mundo. Um dia, puseram-me na rua. Já não aguentava mais. Mas eu percebo-os...
Pediu-me tabaco, dei-lhe o que tinha, um maço quase cheio que, prontamente, repartiu pelo companheiro com aquelas mãos imundas. E, refugiando-se, balbuciou baixinho:
- Aqui também há gente, também há amigos.

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